Terça-feira, Maio 27, 2008
A VIDA É UM JOGO:Título:
The HustlerRealizador: Robert Rossen
Ano: 1961

Fast Eddie Felson é uma das personagens mais marcantes e fascinantes da história do cinema. Incarnado pelo mítico Paul Newman (vénias infinitas), Fast Eddie é um daqueles bastiões do herói romântico degradado, vagabundos cheios de orgulho e carácter, que levam uma vida de boémia, mulheres, irresponsabilidade e bebida, cujo equivalente pós-moderno é aquela tristeza do Pete Doherty, por exemplo. No fundo, são aqueles anti-heróis que Frank Sinatra foi o expoente máximo. Não é coincidência o facto de ele ter estado ligado ao primeiro rascunho deste
A Vida É Um Jogo. Fast Eddie Felson é, simultaneamente, Janes Dean, Frank Sinatra e Charles Bukowski.
Em
A Vida É Um Jogo, Paul Newman (ou melhor, Fast Eddie, porque um e outro confundem-se, tal é o compromisso que o actor celebra com o seu próprio papel) é um jogador de snooker que quer provar a si mesmo que é o melhor do mundo. Para isso, terá que derrotar Minnesota Fats (Jackie Gleason), o mais celebrado jogador de todos. Obviamente, Fast Eddie vai sair derrotado na sua primeira tentativa. E até voltar a tentar, vai ter que se envolver com o agiota Bert Gordon (George C. Scott), ao qual poderá ter que pagar um preço elevado de mais.
Antes de continuar, convém aqui fazer um pequeno aparte para explicar o contexto do filme.
A Vida É Um Jogo ambienta-se nos salões de snooker dos anos 60, casas de jogo abertas em caves bafientas e escuras a paredes meias com bares decadentes, cheias de gangsters, greasers e aldrabões. No fundo, são a versão menos sofisticada e suja dos casinos da alta roda dos filmes de gangsters e da máfia. E aqui, graças ao preto e branco e à realização clássica de Robert Rossen (mesmo com um grave problema em editar os diálogos, chegando mesmo a quebrar por vezes a regra básica do eixo (e isto não é a nouvelle vague!)), conseguimos cheirar o cheiro a fumo das suas paredes, ver o verde gasto dos tapetes das mesas e sentir o ambiente pesado que paira sob os candeeiros que iluminam as mesas de jogo.
A trama de
A Vida É Um Jogo desenvolve-se apoiada num triângulo que envolve os já citados Fast Eddie e Bert Gordon, mas também numa parte feminina: Sarah Packard (Piper Laurie), uma esbelta loira que se vai envolver com Paul Newman e com quem vai partilhar a noite, a boémia e a bebida. Especialmente a bebida. E se ela precisa dele para se endireitar, ele precisa dela como rede caso caia da corda bamba.
Infelizmente, este triângulo dramático acaba por ser também o ponto baixo do filme. É certo que
A Vida É Um Jogo não existe sem essa tríade de relacionamentos tensos e arriscados, mas também é certo que este se alimenta dos conflitos. E para duas metades do triângulo estarem bem, a outra precisa de estar zangada. Por isso, a coisa parece funcionar de forma regular e ordenada: se uns fazem as pazes, os outros têm obrigatoriamente que se chatear.
Filme do cacete e um Paul Newman brutal, que iria dar azo a um spin-off de Scorcese vinte anos depois (alguém mencionou
A Cor Do Dinheiro),
A Vida É Um Jogo perde demasiado tempo no seu segundo acto, o que o obriga a um clímax final curto e straight ahead, o que me chateia sobremaneira. Fora isso, venero-o bastante.
Ah, é verdade, faltou-me falar em McBacons...
Se estiver interessado na sequela, pode ler A Cor Do Dinheiro aqui.
Posted by: dermot @
2:25 PM
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