Terça-feira, Maio 20, 2008
UMA SEGUNDA JUVENTUDE:Título:
Youth Without YouthRealizador: Francis Ford Coppola
Ano: 2007

A ocasião foi solene, as expectativas eram muitas e eu não fugi à regra. Afinal de contas,
Uma Segunda Juventude marcava o regresso de Francis Ford Coppola, um dos maiores nomes vivos do cinema (autor da triologia quase perfeita
O Padrinho, à qual dedico uma mão cheia de vénias bem curvadas), que não assinava um filme há precisamente dez anos.
É curioso constatar que Coppola regressou com um filme que evoca um tempo cinematográfico que ele e os seus pares - os movie brats - ajudaram a enterrar, quando surgiram a dominar Hollywood nos anos 70:
Uma Segunda Juventude relembra os melodramas românticos de Douglas Sirk, emulados no genérico inicial; traz remeniscências dos thrillers políticos nazis, com
Casablanca (obviamente) à cabeça; e até tem pózinhos das matinés aventureiras de domingo à tarde, concentradas em viagens espirituais pela Índia.
Assim, a coisa até parece um coquetaile de aventura e emoção, mas
Uma Segunda Juventude não podia estar mais longe. No fundo, este é um romance épico e filosófico, acerca de um septagenário, Dominic (Tim Roth), obsecado pelo seu trabalho de uma vida (um livro sob a origem da linguagem e os seus signos), cujo um estranho acidente o vai fazer rejuvenescer, adquirir poderes sobre-naturais, desdobrar-se num duplo e enverdar numa qualquer analepse temporal mal explicada. Em suma,
Uma Segunda Juventude é uma variação do síndrome Dorian Gray fundido com a problemática da duplicidade de Polanski, o
Eternamente Jovem e
The Fountain - O Último Capítulo.
Parece estranho. E é. Aliás, o melhor elogio que se pode fazer a
Uma Segunda Juventude é que este não se parece com nada jamais feito. É filmado segundo o estilo clássico de Hollywood, mas Coppola dá-lhe um jeito inovador, com sonhos filmados de pernas para o ar e planos esgroviados, e apesar de se desdobrar em filosofias complicadas, tudo é feito como um pastiche das aventuras dos anos 50. Pelo menos espero que aquela teatralidade kitsch tenha mesmo sido propositada, porque é exageradamente ridícula.
O problema de
Uma Segunda Juventude é a quantidade industrial de informação que se sobrepõe e às tantas parece que são já três filmes sobrepostos, com surrealismo à la David Lynch incluído e tudo (rói-te de inveja
Estrada Perdida). Além disso, os diálogos não ajudam a manter-nos a par das situações, porque tal como o seu colega George Lucas, escrever não é bem com Coppola. Felizmente há Tim Roth num tour de force brutal, a carregar o piano escadas acima.
Já sabíamos que Coppola era mortal e também se enganava (meu Deus, pensava que já tinha conseguido limpar
Jack da minha memória), mas queríamos que
Uma Segunda Juventude fosse um regresso em alta. Não é. A piada só resulta na primeira meia-hora de filme e ao fim de duas horas estamos absolutamente a borrifarmo-nos para o que acontece ao protagonista.
O argumento é fraquinho? Confirmo. Mas o filme é bem filmado como o cacete. E só isso quase merece o Double Cheeseburger por si só.
Uma Segunda Juventude é um filme filosófico. E se para mim ler Kant já é aborrecido, vê-lo por imagens não melhora muito.
Posted by: dermot @
11:30 PM
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