Quinta-feira, Maio 01, 2008
NÃO ESTOU AÍ:Título:
I'm Not ThereRealizador: Todd Haynes
Ano: 2007

Com
Velvet Goldmine, Todd Haynes já tinha mostrado que não era um simples apreciador de música, que gostava de fazer uns simples filems biográficos acerca dos seus músicos favoritos. Todd Haynes é antes um melómano obsessivo e compulsivo, que prefere fazer filmes sobre as próprias cenas musicais e tudo o que lhe está inerente, do que se limitar aos simples intérpretes.
Por isso, adivinhava-se à partida que este
Não Estou Aí, filme baseado livremente na vida e obra de Bob Dylan, não iria ser um simples bio-pic. Porque ao contráiro deste género, em que os realizador partem do pressuposto que o espectador é uma criança de 5 anos e não sabe nada acerca do representado, Todd Haynes faz ao contrário, presumindo que os espectadores sabem como ele todos os pormenores da história da música, construindo elaboradas histórias com eles.
Era assim em
Velvet Goldmine, um filme que mais do que uma romantização da vida do alter-ego de David Bowie, Ziggy Stardust, e dos seus contemporâneos Marc Bolan e Iggy Pop, era uma fantasia acerca do glam-rock e de toda a cena socio-cultural que daí adviu. E é assim
Não Estou Aí, adaptação simbólica da vida e obra de Bob Dylan, um dos maiores ícones do século XX e um mestre da palavra.
Fora os devidos exageros, a melhor forma de entender Bob Dylan é compará-lo com Fernando Pessoa. Contudo, no caso do norte-americano não são tanto heterónimos, mas antes personalidades que se alteraram consoante os sinais do tempo. E Todd Haynes toma este pormenor literalmente e desconstrói a vida de Bob Dylan em sete camadas, recorrendo a seis actores diferentes para representar cada uma essas sete fases da vida - Cate Blanchett, Ben Whishaw, Christian Bale, Richard Gere, Marcus Carl Franklin e Heath Ledger - e recorrendo a sete formas de filmar distintas para as distinguir a todas, desde o preto e branco ao 16mm granulado.
O resultado final é uma espécie de fantasia ao bom sentido de
Across The Universe, mas em formato-mosaico e de natureza artsy. Infelizmente, chegando ao fim, a coisa não vai necessariamente fazer todo o sentido; e ao contrário dos filmes surrealistas, não ficamos necessariamente com a impressão de que ficou algo escrito nas entrelinhas. O problema de
Não Estou Aí é que, ao contráiro de
Velvet Goldmine, que mesmo para quem não estivesse familizarizado com o glam-rock acabava por ser uma boa história de auto-estima, não consegue manter-se em pé para aqueles que não conhecem a complexa história do Bob Dylan. Para estes, Não Estou Aí é apenas uma miscelânea de episódios aleatórios sem grande sentido.
Não Estou Aí tem ainda feito furor devido a uma das facetas de Dylan: a elétrica, representada por Cate Blanchett, que se supera completamente. Também é verdade que esta é a faceta que mais mimetiza o próprio Bob Dylan, mas também não deixa de ser a mais feliz no filme de Todd Haynes. É fantástica a desconstrução surrealista que o realizador faz da primeira apresentação eléctrica da banda no Festival de Folk de Newport, com uzis em vez de guitarras eléctricas, ou o ambiente felliniano escalpelizado de 8 1/2 que é pintado a visita de Dylan ao Reino Unido, com a beatlemania em pano de fundo ( e com Brian Jones, o tipo daquela "banda de covers", os Rolling Stones).
Para quem não é fã de Bob Dylan,
Não Estou Aí irá certamente soçobrar. Para os outros, será menos doloroso, mas mesmo assim não será o filme que estariam à espera. Eu pelo menos estava à espera de outra coisa, ou mais simbólico, ou mais literal. Assim, é apenas um McChicken que serve para ouvir boa música e enganar a fome às vezes.
Posted by: dermot @
11:22 AM
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