Sexta-feira, Maio 09, 2008
BEIJING BASTARDS:Título:
Beijing Za ZhongRealizador: Yuan Zhang
Ano: 1993

Para nós, distraídos ocidentais, a China é só artes marciais, tai chi e comunismo. Por isso, se eu vos disser que a China também é muito rock'n'roll, vocês vão certamente ficar admirados. Bem, não é bem assim... Primeiro, a China começou por ter uma cena rock no início da década de 90, mas ela foi fugaz; com os confrontos de Tianamen, o Partido Comunista Chinês apertou a censura e acabou com o rock. Contudo, actualmente, com a abertura do país ao ocidente, o rock'n'roll tem vindo a sobressair no underground musical e são já muitas as bandas que merecem destaque no género. Podem comprová-lo no artigo que vem hoje no Ipsilon. Se não tiverem paciência para lerem tanta letra, então eu resumo-o a três simples palavras:
My Little Airport.
Essa primeira fase do rock chinês ficou perpetuada num documento marcante da cultura chinesa: o filme
Beijing Bastards, o primeiro filme totalmenete independente do país e um símbolo da contra-cultura local, que despontou para as luzes da ribalta o realizador Yuan Zhang.
Mas não se deixe enganar como eu:
Beijing Bastards não evoca o rock chinês, mas antes a essência dessa mesma realidade. Através de um filme-mosaico algo desconstrutivista (minimalista?),
Beijing Bastards apanha em três estórias - a do jovem Karzi, que procura a sua namorada que fugiu grávida; a do pai do rock chinês, Cui Jian, que fica sem local para ensaiar com a sua banda rock; e a de Daqing, que vai ajudar o seu amigo Yellow a tentar recuperar o dinheiro de uma dívida -, que apesar de parecerem não ter nada a ver, têm em comum o facto de terem como protagonistas jovens inadaptados, assimétricos à moralidade do Partido Comunista Chinês. Em suma, são rebeldes contra a condescendência da sociedade que os envolve, apesar de isso poder ser confundido com hedonismo, irresponsabilidade, desrespeito, ou, simplesmente, uma vida sem sentido.
Beijing Bastards é um verdadeiro filme independente, quando este ainda não se tinha tornado ele próprio num género; um filme longe de qualquer convenção artística pré-definida, apenas fiél às firmes convicções do seu realizador. Além disso, o baixo orçamento resulta numa fotografia com problemas de luminosidade e actores que nem sempre sabem o que fazer. Contudo, tudo isto também pode ser entendido como pretensionismo de Yuan Zhang, que parece ter andado a ver os filmes sobre o alheamento do Antonioni e que quis imitar o efeito choque de Larry Clark, com o recurso a uma linguagem cheia de palavrões e a acções moralmente repreensíveis, que se sucedem a velocidade super-sónica.
Tudo isto é intercalado com o rock de Cui Jian, algo datado e com as caracteristicas épicas dos anos 80, que abre o filme de forma excelente com uma super-balada cheia de sentimento. Infelizmente, se o princípio parecia ser um teledisco romanceado, o resto do filme limita-se a simples actuações musicais, que servem apenas como catálogo do que era o rock chinês naquela altura.
Constou-me, através de
alguém que sabe desta poda, que os outros filmes de Yuan Zhang são bem mais interessantes; também o novo rock chinês é bem mais giro. Por isso, não se admirem de
Beijing Bastards ser apenas um Cheeseburger.
Posted by: dermot @
11:55 AM
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