Terça-feira, Abril 15, 2008
O LADO SELVAGEM:Título:
Into The WildRealizador: Sean Penn
Ano: 2007

Numa era em que o dinheiro faz mover o Mundo, o jovem Chris McCandless destacou-se por ter conseguido renegar por completo à vida capitalista. Após ter completado o liceu, McCandless doou o seu dinheiro para caridade, cortou todos os seus cartões e partiu à aventura, sozinho e sem dizer a ninguém, apenas acompanhado pelos livros dos seus autores favoritos - de Tolstoi a Jack London -, embarcando numa verdadeira demanda espiritual, que tinha como objectivo final o Alaska.
McCandless acabaria por falecer, encurralado na floresta pela sua inexperiência e pelo seu próprio espírito aventureiro, mas desde que Jon Krakauer escreveu um livro sobre a sua vida, que o jovem caminheiro tem criado uma grande legião de admiradores, que o elevaram a ícone e a exemplo a seguir, pela sua coragem e atitude.
Também Sean Penn se apaixonou pela vida do jovem e, após dez anos de labuta, conseguiu adaptar o livro ao cinema, com o título homónimo de
O Lado Selvagem, num projecto claramente muito pessoal. Contudo, ao contrário do livro de Krakauer, que romantiza a sua vida e o tornam numa espécie de anti-herói romântico com quem é fácil simpatizar, o filme de Penn proporcia uma dimensionalidade ainda mais profunda a McCandless, dando ao espectador algumas razões para tal empresa. No fundo, o que fica no ar é que McCandless, apesar de buscar a essência do ser humano que era incapaz de ser achada na sociedade doentia actual, acaba por o fazer em grande parte por culpabilizar os pais por todo o mal do mundo e da sua vida. Há quem chame a isto um miúdo mimado...
O grande problema de
O Lado Selvagem é mesmo este; o facto de ser um projecto tão pessoal, faz com que Penn acabe por se descuidar ao tentar transmitir a sua própria opinião, revelando muitas vezes em demasia. Fazia falta ao filme maior contenção. Lembram-se da máxima less is more? Por exemplo, no final, quando McCandless fica doente, Penn vê-se na obrigação de arrastar a personagem por entre livros para explicar as razões da sua morte, quando ao espectador apenas bastava saber que ele ia morrer. E a cena final é de uma exaustão atroz, que puxa tanto o tearjerker, que quando chega ao fim já os nossos olhos estão mais secos que o deserto do Nevada.
Mas
O Lado Selvagem consegue verdadeiros momentos de liberdade, alturas em que sentimos verdadeiramente o espírito livre e aventureiro de McCandless a invadir-nos. Nesta espécie de
Diários De Che Guevara meets
o derradeiro road movie, sentimo-nos ao seu lado a correr junto aos cavalos selvagens, a descer os rápidos, ou a escalar as montanhas nevadas do Alaska. Infelizmente, Sean Penn optou por uma linha narrativa não-linear, o que faz o filme perder o ritmo e não ter essa força de uma forma constante.
Existem ainda resquícios de Mallick na forma como Penn capta a natureza e alguma land art monumental ao bom jeito de
Gerry. Mas também existem opções artísticas igualmente duvidosas. Quem acaba por se comprometer de vez com o filme é o jovem actor, Emile Hirsch, entregando-se de corpo e alma ao papél, ganhando e perdendo peso consoante as necessidades. A sua actuação faz lembrar uma fusão entre a de Tom Hanks em
O Náufrago e a de Christian Bale em
O Maquinista.
O Lado Selvagem é um filme desiquilibrado, com altos e baixos (e um relacionamento amoroso que me causa apreensão de tão perfeito que é), mas com uns altos tão poderosos que chega a merecer o McRoyal Deluxe, mesmo rés-rés campo de Ourique. E ainda nos faz repensar, durante o caminho para casa, na produtividade da nossa vida.
Posted by: dermot @
11:42 PM
|