Terça-feira, Abril 15, 2008
JOHN RAMBO:Título:
RamboRealizador: Sylvester Stallone
Ano: 2008

Quando começou esta obsessão recente pelas sequelas e prequelas por parte dos tecnocratas do mundo do cinema, dizia-se na brincadeira que
só faltava fazer uma continuação do Rambo. A coisa era tão improvável que mesmo após Sylvester Stallone ter ressuscitado o cadáver do Rocky, em
Rocky Balboa, a piada continuou a ser dita. Mas o impensável aconteceu; Stallone não ficou satisfeito por ter recuperado o pugilista que derrotou sozinho a Guerra Fria, como quis também repescar o super-soldado de direita que fez as delícia de Ronald Reagan:
John Rambo.
Por isso, eis a tão aguardada sequela:
John Rambo, em vez do Rambo IV que seria de esperar, o nosso mais recente guilty pleasure e o sonho molhado mais antigo dos cinéfilos mais hardcore. Sylvester Stallone, apesar da sua idade para ter juízo - sim, Sly já tem 60-sessenta anos -, continua em grande forma; e após argumentos iniciais que envolviam Rambo a derrotar o Bin Laden ou Rambo a enfrentar extraterrestres que invadiam os Estados Unidos, eis uma premissa bem mais realista, passada na perigosa selva da Birmânia.
Antes de continuar, deve-se fazer uma pausa para apresentar e relembrar o herói aos mais novos e aos mais esquecidos. Stallone foi Rambo pela primeira vez em
Rambo - A Fúria Do Herói, uma obra-prima que o introduzia como um anti-herói regressado do Vietname, uma vítima da desumanização da guerra que só queria voltar para casa. O sucesso foi tanto que, três anos depois, surgia
Rambo II - A Vingança Do Herói, com o herói reabilitado em máquina de guerra, sozinho de volta no Vietname apenas com uma faca e um arco de flechas, vingando-se de tudo e de todos. Os dados estavam lançados e já nãop havia volta a dar: mais trê sanos volvidos e eis
Rambo III, o super-filme de acção, com Rambo convertido em saco de músculos e estandarte da política de direita, ao lutar sozinho ao lado dos Talibãs enquanto debitava one-liners espirituosas, para delícia de Reagan. Nascia aqui o blockbuster como o conhecemos hoje, cheio de fogo-de-artífico e despojado de substância, onde o irrealismo exacerbado é a bandeira a agitar.
Agora, vinte anos depois, só havia duas formas de fazer uma sequela de Rambo. Era óbvio que se deveria fechar o círculo, mas haviam dois caminhos a seguir: ou continuava-se na onda de
Rambo III e da xungaria ao mais alto nível, pondo Rambo a lutar contra o mundo inteiro; ou recuava-se às origens de
Rambo - A Fúria Do Herói e dava-se espessura dramática suficiente para Stallone recuperar o anti-herói novamente, como fizera em
Rocky Balboa. Mas Sly foi ainda mais longe e conjugou essas duas opções. Assim,
John Rambo faz um back to basics à personagem, tudo isto envolvida numa matança do porco descomunal, como nunca se viu no cinema.
Temos então um Rambo exilado na Tailândia, onde caça serpentes venenosas, navega numas palhotas e faz uns trabalhos de ferreiro. É um Rambo mais próximo das tretas espirituais da new-age, que até houve a sua theme song, de Jerry Goldsmith, em versão pan pipes (e esta é uma das grandes pechas do filme, não aparecer uma cena com o mítico tema original). Mas afinal de contas, rambo não está mais duro; está é carente. E quando uma cara bonita (Julie Benz) lhe pede boleia para levar uns padres até à Birmânia, Rambo vai enfiar-se na boca do lobo sem hesitar. E depois, só ele pode salvar a situação, salvando todos e matando tudo o que se mexa.
Stallone, que pela primeira vez realiza um filme da série, consegue safar-se nas partes mais difíceis. Consegue criar um argumento minimamente credível sem pisar todos os clichets do género e consegue evitar a dramatização exagerada. Além disso, traz um Rambo mais tramado do que nunca, mais cruél e sanguinário do que nunca, que mata maus com as próprias mãos (sim, existem cabeças cortadas com as mãos) e os desfaz em carne picada com super-metralhadoras à queima-roupa. O gore nunca foi tão realista e os maus nunca ficaram, literalmente, tão desfeitos. Peckinpah iria ficar radiante com um filme assim...
John Rambo respira série-b por todo o lado. Stallone não teve pretensões em fazer mais do que mais uma sequela do Rambo. E conseguiu-o em menos de hora e meia de filme, como se pede em filmes sanguinários. No final, só sentimos falta de um vilão mais bidimensional a enfrentar o nosso herói musculado favorito, em vez do inimigo colectivo. Senhoras e senhores, o Rambo está de volta: vamos saudar com um McRoyal Deluxe.
Posted by: dermot @
11:07 AM
|