Sexta-feira, Abril 18, 2008
JACKIE BROWN:Título:
Jackie BrownRealizador: Quentin Tarantino
Ano: 1997
Jackie Brown foi o filme mais importante da carreira de Quentin Tarantino: é que se após
Cães Danados, o realizador ainda tinha o benefício da dúvida por parte do público, que lhe tolerariam um filme menor, depois da obra-prima que foi
Pulp Fiction ele não tinha a mais pequena margem de erro para falhar.
Assim, o filme que se lhe seguisse determinaria toda a sua carreira. E Tarantino não o fez por menos: em três tentativas, três filmalhaços. Talvez por isto que
Jackie Brown seja o filme da sua filmografia mais incaracterístico: se por um lado é aquele que é
mais filme, ou seja, mais rico argumentativamente e com mais substância, por outro lado é a sua obra com menos impacto visual imediato. Não é por isto de admirar que
Jackie Brown seja, normalmente, amado por uns e odiado por outros: os primeiros amam-no porque é um filme rico e cheio de cinema; os segundos detestam-no porque não tem os truques e os caprichos dos restantes trabalhos de Tarantino. E eu? Eu não o amo nem o detesto.
Após
Pulp Fiction, Tarantino voltou a aperfeiçoar o neo-noir, desta vez traçando-o com os blaxpoitation movies da década de 70 - referência inevitável ou não fosse a protagonista Pam Grier, nada mais nada menos que a implacável
Foxy Brown, e não estivesse lá também Sid Haig (vénia).
Jackie Brown é uma espécie de heist movie, mas em vez de um assalto a um banco, temos uma espécie de esquema a cinco cabeças, que têm todas o mesmo objectivo: ficar com o meio milhão de dólares do traficante Robbie Ordell, novamente Samuel L. Jackson a fazer aquilo que sabe fazer melhor: badass mothafucka, desta vez com rabo-de-cavalo e uma barbicha entrançada.
Não se encontram tão constantemente em
Jackie Brown os habituais vestígios de reciclagem a outros filmes como acontece nos restantes trabalhos de Tarantino, ou pelo menos de forma tão evidente. Mas percebemos que o realizador andou a estudar os travellings e o ecrã dividido de Brian De Palma e todos os blaxpoitation movies da década de 70 (com banda-sonora a condizer e com os Delphonics à cabeça). Além disto,
Jackie Brown é ainda o último filme da fase-Godard de Tarantino, onde encontramos os seus próprios truques, com planos arrojados (todos sabem que um plano do interior da mala de um carro é já marca registada) e experiências menos convencionais.
O único problema do filme, será porventura, o seu próprio ritmo. Apesar do excesso de informação,
Jackie Brown desenrola-se a uma velocidade muito cool e pasmacenta. O que uns podem identificar como síndrome-Manoel de Oliveira, deve ser captado como a própria essência do blaxpoitation movie: filmes cheios de estilo, que decorrem ao mesmo ritmo que a personalidade das suas personagens. E sabemos que nenhum tipo com estilo terá alguma vez na vida pressa. Porque quando temos estilo, toda a gente espera por nós.
Por fim,
Jackie Brown tem ainda Robert De Niro a fazer de crack-head, Michael Keaton a fazer de Michael Keaton e Chris Tucker num fugaz papel. E se em
Pulp Fiction, Quentin Tarantino tinha reabilitado a barrigona de John Travolta, aqui reabilitou as varizes da bombástica Pam Grier. Contudo, Tarantino não é milagreiro e nem ele conseguiu fazer nada pela carreira de Bridget Fonda, que é o que tem melhor aspecto em todo filme.
Tal como referi anteriormente, não amo nem detesto
Jackie Brown. Mas deve ser, quiçá, o único filme do mestre que não termino com o habitual Royale With Cheese, mas antes com um Le Bic Mac.
Posted by: dermot @
12:16 PM
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