Segunda-feira, Abril 21, 2008
CYRANO DE BERGERAC:Título:
Cyrano de BergeracRealizador: Michael Gordon
Ano: 1950

Quando, na década de 90, Gerard Depardieu me apresentou à figura de
Cyrano de Bergerac, a minha pessoa ficou desde logo fascinada. Cyrano é o último bastião dos heróis românticos, apenas ultrapassado na miséria por Chatterton: uma figura incontornável da história francesa, cujo génio só era equiparável ao tamanho do seu nariz e cuja vida foi votada ao desamor.
No século XIX, o poeta francês Edmond Rostand escreveu uma peça romanceada sobre a vida de
Cyrano de Bergerac (assim como
Amadeus está para Mozart), que desde então tem servido de inspiração para múltiplas adaptações, inclusive para o cinema. A primeira foi em 1925, por Pierre Magnier; e a última foi em 2005, por George Blume. Contudo, a mais famosa (ou pelo menos a mais bem sucedida) continua a ser a tímida adaptação de 1950, vencedora de um Oscar e assinada por Michael Gordon.
Como em todos os romances, este também distorce a realidade dos factos a favor da dramatização da história. Por exemplo: é sabido que Cyrano tinha um longo nariz - ele próprio o referia -, mas obviamente que não era o poleiro à Pinóquio que o filme retrata.
Para quem não conhece, Cyrano de Bergerac era um carismático poeta, um eloquente orador e um exímio espadachim. Era insolente e arrogante, mas leal, justo e solidário. Dono de um espírito e um génio gigantescos, Cyrano é o exemplo perfeito do herói romântico. Se o tivesse que descrever por comparação, diria que é o
Dr. House da era romântica; ou a mistura das melhores qualidades de Astérix e Obélix; ou ainda, a versão mosqueteiro de
Blueberry. O facto de não dever muito à beleza sempre martirizou Cyrano, que se refugiou na solidão, vivendo sozinho uma paixão arrebatadora pela sua linda prima, Roxane (Mala Powers), cujas casualidades do destino (é sempre assim) ainda tornaram a história mais trágica.
Cyrano de Bergerac é então uma biografia histórica, com uma inclinação para a parte operática da coisa. Contudo, a incerteza de Hollywood acerca de como iria ser a recepção do público a um filme de um mosqueteiro apaixonado (afinal de contas, na época filmes de mosqueteiros eram sinónimo de aventuras domingueiras), fez com que a produção fosse tímida. E, infelizmente, o resultado final quedou-se por um baixo orçamento que apenas deu para construir um par de cenários de época, uma realização atrapalhada e um leque de actores do sofrível para baixo. A excepção é o protagonista José Ferrer (vénia), cuja interpretação lhe valeu o respectivo Oscar desse ano e que, num verdadeiro tour de force, faz com que o filme salte do desastre anunciado para a quase obra-prima (estou a exagerar).
Mas o problema maior de
Cyrano de Bergerac é a forma abrangente como Michael Gordon aborda a história, mais como um bio-pic do que como uma tragédia amorosa. No fundo, quer queiramos quer não, esta é a história de um homem atormentado pelo amor, a quem o Cupido pôs a prova e de quem judeou fortemente. Contudo, os primeiros vinte minutos de filme - que servem para apresentar a personagem de Cyrano ao espectador - são dos melhores pedaços de cinema clássico de Hollywood.
Não é o meu
Cyrano de Bergerac favorito (talvez vos diga qual é nos próximos dias), mas é sem dúvida um delicioso McBacon.
Posted by: dermot @
3:23 PM
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