Quarta-feira, Março 19, 2008
LOBOS:Título:
LobosRealizador: José Nascimento
Ano: 2007

Devido ao divórcio que existe entre o público português e o seu cinema, poucos sabem que nós fomos uns dos pioneiros nessa coisa da sétima arte: em 1896, apenas um ano depois dos irmãos Lumière, o portuense Aurélio da Paz dos Reis apresentou ao público o seu primeiro filme -
Saída Do Pessoal Operário Da Fábrica Confiança. Contudo, apesar dessa actividade precoce, o primeiro filme nacional na verdadeira acepção do termo só surgiu em 1923, pela mão de Rino Lupo - chamava-se
Os Lobos.
Agora, 85 anos depois, o cinema nacional brinda-nos com outro título semelhante,
Lobos, desta vez assinado por José Nascimento. Não vi
Os Lobos, mas consta que foi aí a tradição documental do mundo rural do cinema português, mais descrita do que contada e mais apresentada do que encenada. Por isto, arrisco a dizer que
Lobos é um primo afastado de
Os Lobos e não é só pelo nome.
Tal como em
Tarde Demais, o anterior filme de José Nascimento,
Lobos inicia-se poucos minutos após o acontecimento dramático que vai epsoletar toda a narrativa. Em
Tarde Demais não vimos o naufrágio que deixou todos aqueles homens à deriva no Tejo e, em
Lobos, não vemos o crime que acabou de acontecer. Vemos só Joaquim (Nuno Melo) a fugir, com ecos de tiros no ar e o cheiro a pólvora ainda presente, e a sua sobrinha de 16 anos, Vanessa (a bela, talentosa e já muito desenvolvida Catarina Wallenstein), a acompanhá-lo na fuga.
Os primeiros 20 minutos de filme são, quiçá, a coisa mais bem filmada do cinema nacional dos últimos anos valentes: os enquadramentos ideais, a luz correcta, a banda-sonora certa, as interpretações no ponto (gosto do estilo atabalhoado de Nuno Melo, desde os tempos do Caniço na Vila Faia, em que andava aqui pelo
TAS, e já tinha saudades do grande Vítor Norte) e o argumento a ser-nos revelado a pouco e pouco. Como o facto de o leitmotiv do crime ter sido o incesto entre tio e sobrinha, que só nos é dito já o filme vai longo...
O casal de fugitivos vai então enveredar num road-movie em direcção aquele sítio para onde os proibidamente apaixonados e/ou deslocados vão nestas situações. Por vezes nem eles sabem bem para onde vão. Interessa é ir. E aqui, Catarina Wallenstein até parece a versão clean de Juliette Lewis em
Assassinos Natos, tal é a sua predisposição para o sexo e para mostrar pele.
Depois do início fulgurante,
Lobos entra em velocidade cruzeiro pelo caminho mais ou menos óbvio (o que não é necessariamente mau), optando ainda por criar um sub-enredo secundário com Francisco Nascimento como figura central. Percebe-se a intenção de José Nascimento em dar espessura aquela estória que, de outra forma, se arriscava a ser uma versão boa do
98 Octanas, mas no final esse sub-enredo tem tanta pertinência quanto o striptease gratuito de Carla Matadinho em
Sorte Nula.
Depois de
Coisa Ruim e
A Outra Margem,
Lobos é mais um filme que tira uma fotografia genial da ruralidade portuguesa. Mas a grande novidade são os últimos vinte minutos, passados em plena Serra da Estrela, com o trio de personagens em fuga. Não sei se será inédito, mas
Lobos deve ser um dos únicos filmes portugueses com neve. E neste cenário, José Nascimento sentiu-se, provavelmente, como se estivesse na Suécia e transformou o road-movie em drama gelado. De repente, ficámos com uma espécie de
Gerry filmado por Ingmar Bergman. Insensatez da parte do realizador, de certo, mas pelo menos teve tomates para arriscar. Mesmo com as contrariedades da produção...
Por todos os prós e contras,
Lobos é um excelente pedaço de celulóide. E este McBacon
nem parece português.
Posted by: dermot @
12:30 AM
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