Terça-feira, Março 11, 2008
LA VIE EN ROSE:Título:
La MômeRealizador: Olivier Dahan
Ano: 2007

Se a vida de Edith Piaf fosse um filme seria um filme da Teresa Villaverde, a grande especialista em filmar estórias do coitadinho: personagens com vidas miseráveis a quem acontece todas as tragédias possíveis e imaginárias, cuja única coisa positiva na vida foi o teste da sida.
Mas como a realidade é sempre mais estranha que a ficção, Edith Piaf conseguiu ter uma vida ainda mais trágica que um filme da Teresa Villaverde. Aliás, se Piaf não tivesse nascido em França, só poderia nascer em Portugal. Ora vejamos: foi abandonada pela mãe em pequena, foi criada numa casa de meninas, cresceu num circo itinerante, viveu vários anos na miséria, foi acusada de cumplicidade num crime, teve um acidente de automóvel que a ia matando, viu o homem da sua vida perecer num desastre de avião, sofreu de reumatismo e viciou-se em analgésicos. Nem a
Severa teve uma vida com tantas contrariedades...
Com tanta coisa má na vida, a frágil Edith Piaf só tinha um destino traçado: o estrelato. Dona de uma voz única, Piaf transformou-se numa das maiores divas da história da música, subindo ao mesmo panteão que Amália Rodrigues ou Billie Holiday. Além disso, foi uma das primeiras estrelas do star system da música e a primeira punk-star: dona de um mau-feitio irascível, que mais não é que a faceta hedonista dos artistas, Piaf era o exemplo cristalizado do retrato romântico dos grandes músicos, mergulhada numa vida de boémia e bebida.
Todos estes ingredientes só poderiam resultar, mais tarde ou mais cedo, num bio-pic. E como os franceses não costumam ignorar os seus heróis, este surgiu o ano passado (com Gerard Depardieu no elenco, como qualquer filme francês da actualidade que se tenta mostrar credível perante os estrangeiros), sob o título
La Vie En Rose, que após um início discreto pelas salas de cinema, ganhou novo fôlego com o Óscar que Marion Cotillard arrecadou pelo seu desempenho como melhor actriz.
Como já vimos pelos primeiros três parágrafos desta prosa, com tanta matéria fértil não era complicado fazer um filme interessante. O mais difícil era fazer um filme bom.
La Vie En Rose é interessante, mas não é propriamente bom. Com tanto para contar em tão pouco tempo, Olivier Dahan não conseguiu ir além da colagem de uma sucessão de factos relevantes na vida de Edith Piaf, desde a sua infância até à sua morte. Assim, não existem personagens secundárias, apenas bibelots decorativos a enfeitar a trama, nem tão-pouco profundidade dramática, em sequências que terminam abruptamente e que se iniciam à velocidade que a anterior terminou. Para ajudar tudo isto, Dahan optou por uma narrativa não-linear, como que se as analepses e as prolepses fossem disfarçar as lacunas qualitativas.
Formalmente,
La Vie En Rose também não é particularmente elogioso. Mais uma vez, Olivier Dahan usa e abusa dos grandes planos, teimosamente fechados sobre a cara de Mario Cotillard, que passamos o tempo a temer que esta dê uma cabeçada na câmara. Isto para não falar que a câmara treme mais do que num filme de guerra. Dispensava-se tamanho dramatismo numa história com tanto de trágico; tanto melodrama arrisca-o a cair no ridículo, como a exagerada montage final. Eu sei que até
A Fúria Do Herói tem uma montage, mas bolas, aqui é como chover no molhado. Se Dahan tivesse feito mais cenas como aquela em que Piaf recebe a notícia que o seu amante morreu, sem truques de algibeira e com um cunho bem mais pessoal,
La Vie En Rose teria sido um grande trabalho.
La Vie En Rose é então um filme interessante por três coisas: pela própria vida de Edith Piaf, que vale qualquer tempo gasto na nossa insignificante vida; pela sua música assombrosa, que o maravilhoso mundo do youtube nos permite recordar sempre que quisermos; e pela interpretação de Mario Cotillard, que se entregou de corpo e alma ao papel, transformando-se naquela espécie de Olivia Palito com jeito para a cantoria ao longo de quatro décadas.
Interessante mas não propriamente bom. Perceberam? McChicken e tal...
Posted by: dermot @
12:25 AM
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