Quarta-feira, Fevereiro 27, 2008
O SONHO DE CASSANDRA:Título:
Cassandra's DreamRealizador: Woody Allen
Ano: 2007

O segredo de Woody Allen em ser um grande realizador não está em fazer um filme todos os anos. Está antes no facto de não fazer um mau filme. As suas obras quando não são boas, apenas são menos boas. Aquilo a que carinhosamente apelidamos de um
Allen menor.
O Sonho De Cassandra é o terceiro filme de Allen em Inglaterra, desde que se mudou para a Europa (o próximo será na Espanha), depois de
Match Point e
Scoop. E tal como o primeiro,
O Sonho De Cassandra é o regresso de Allen ao crime movie ligeiro. Aliás,
O Sonho De Cassandra é mesmo um primo afastado de Match Point. E só não digo que é um parente pobre, porque considero o
Match Point como um filme muito sobrevalorizado.
O Sonho De Cassandra é uma referência ao barco que dois irmãos muito chegados, Ian (Ewan McGregor) e Terry (Colin Farrell) compram e reparam. Pode-se dizer que ambos têm um problema com a honestidade: o primeiro quer ser rico sem ter que trabalhar muito e, por isso, tenta arranjar variados esquemas para enriquecer, ao mesmo tempo que tenta surpreender a mulher da sua vida, a actriz com um certo problema com a promiscuidade Angela Stark (Hayley Atwell), com uma vida falsa de opulência; e o segundo alimenta um vício pouco saudável no jogo e no whisky. Em suma, ambos precisam de dinheiro com frequência. E duas vagas de azar simultâneas vão faze-los entrar em despesas enorme, cuja única saída vai ser a ajuda de um tio rico e um certo assassinato.
Desde que se mudou para a Europa que Allen está diferente. Trocou Gershwin por Philip Glass e deixou de ser o neurótico tipo nova-iorquino para se transformar num cavalheiro britânico. Por isso, aquilo que nos Estados Unidos seria um policial ligeiro ou um thriller cheio de suspense (conforme o realizador), aqui torna-se num crime movie mais perto da tradição de Claude Chabrol do que dos whodunnits ingleses.
O Sonho De Cassandra parece ter sido filmado apenas para cumprir calendário e manter o registo anual de filmes, uma vez que é filmado em câmara automática e em fast forward durante a primeira parte, à medida em que Colin Farrell vai alternando o muito bom com o sofrível. O que chega a ser constrangedor é uma cena-chave do filme, em que o tio rico propõe um assassinato aos dois irmãos como moeda de troca, filmada com graves falhas de raccord, uma montagem desastrosa e uns zooms que mais parecem uns tiques nervosos do operador de câmara.
Se mantivesse sempre este registo convencional e muito académico,
O Sonho De Cassandra poderia ser um bom filme de série b para a sessão da meia-noite, mas no último terço Allen volta a ser Allen, nas partes mais tensas. Nada de extraordinário, apenas bom. Contudo, quando as coisas estão mesmo a melhorar, Allen dá ao filme o típico final "que se lixe", que para quem não sabe é aquele final em que o realizador pensa "não sei como é que hei-de acabar isto... olha, fica mesmo assim, que se lixe".
O Sonho De Cassandra é um Allen menor mais, uma espécie de McBacon com uma bebida tamanho extra.
Posted by: dermot @
12:12 AM
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