Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008
O SELVAGEM:Título:
The Wild OneRealizador: László Benedek
Ano: 1953

Nunca fui muito bom em superlativizar coisas. Quem é o melhor jogador de futebol, qaul é a melhor música de sempre, qual é o melhor vinho de todos, são tudo perguntas que dependem muito dos critérios de comparação e, especialmente, do estado de espírito na altura. Contudo, tenho duas excepções, às quais consigo sempre responder de forma igual e sem hesitar: qual é o melhor filme de sempre e quem é o melhor actor da história do cinema? À primeira a resposta é
Pulp Fiction. E a segunda é Marlon Brando.
O Selvagem não é, de longe, o melhor filme de Brando, mas é sem sombra de dúvidas o mais iconográfico. Além disso, foi aquele que o introduziu ao público adolescente, criando a sua imagem de rebelde sem causa e líder de uma geração que começava a despontar, com James Dean e Paul Newman na linha da frente.
Em
O Selvagem, Brando é Johnny, o líder de uma irresponsável gangue de motards - o Black Rebel Motorcycle Club -, jovens errantes sem destino na vida, com ligeira apetência pela destruição (tentativa ridícula de aportuguesar a expressão
appetite for destruction). Depois de alguns distúrbios, o grupo vai estabelecer-se durante um dia e uma noite numa pequena vila, onde encontram a tolerância do dono do bar (que via neles uma excelente oportunidade de negócio) e do xerife local (Robert Keith), um velhote visto por muitos como um banana, mas que procurava apenas uma forma justa de actuar perante todos.
Marlon Brando preconiza aqui o protótipo do rebelde sem causa, boneco que atingiria o seu auge em
Fúria De Viver, e que se tornara num espelho de toda a adolescência dos anos 50, revoltados perante a sociedade condescendente que os rodeava. Era o primeiro passo para o rock'n'roll, a contra-cultura e os loucos anos 60. O Johnny de Brando é então esse rebelde ainda em cru, um selvagem que ainda não aprendeu a dominar o seu instinto; um jovem que apenas sente que tem que partir e cujo corpo reage violentamente às regras impostas. E um jovem que encontra uma extensão da sua virilidade na Triumph Thunderbird que cavalga.
O Selvagem é ainda um documento fundamental na cultura rock, uma vez que introduz não só oo Black Rebel Motorcycle Club (sim, o nome da banda norte-americana não é coincidência), como uma gangue motard rival chamada The Beatles. Nunca foi confirmado pelo fab four que tenha sido esta a influência no nome da banda, mas o que é certo é que Brando aparece na capa de
Sgt. Pepper's Lonely heart Club Band vestido como Johnny e uma cena do filme aparece como introdução do documentário
The Beatles Anthology. Eu agora é que não tenho tempo, porque senão ainda ensaiava aqui uma tese acerca da relação musical e fílmica entre os Beatles e os BRMC.
Voltamos então ao filme e, agora, para dar as más notícias. Apesar de todas as valências históricas e de ser um dos marcos do conflito geracional do cinema dos anos 50,
O Selvagem não é um filme para ser recordado pelas suas capacidades cinematográficas. Tudo porque acaba por ser um filme demasiado datado, com falhas de edição, com alguns diálogos cheesy e até um pouco "hollywoodados". Por exemplo, é certo que Marlon Brando tem uma interpretação fantástica, mas só quando não tem que dizer nada. Como dizem os brasileiros, em
O Selvagem, Marlon Brando de boca fechada é um poeta.
Como já referi nas linhas acima,
O Selvagem pode não ser o melhor filme de Brando, mas é o mais iconográfico. E está cheio de outras coisas que o fazem merecedor de um lugar na nossa videoteca: é o cartão de visita ideal para o trabalho de Marlon Brando, tem os Black Rebel Motorcycle Club, inicia o culto da mota, dá o pontapé de saída no conflito de gerações que marcou os anos 50 e lança os dados da música popular anglo-saxónica. E como objecto fílmico é um McChicken.
Posted by: dermot @
10:58 AM
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