Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008
O ASSASSÍNIO DE JESSE JAMES PELO COBARDE ROBERT FORD:Título:
The Assassination Of Jesse James By The Coward Robert FordRealizador: Andrew Dominik
Ano: 2007

Desde que o western clássico morreu, com
O Homem Que Matou Liberty Valance, e exceptuando o fenómeno do western spaghetti (a excepção que confirma a regra), os filmes de cowboys têm-se pautado por algumas repescagens, mas nada de muito sério. Mesmo que no início da década de 90 isso tenha parecido estar próximo, com
Danças Com Lobos e
Imperdoável. Para já é esperar para ver, mas podemos aguardar com expectativa, pois parece que é mesmo desta que o revivalismo do western veio em força.
O Assassínio De Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford é o primeiro deste segundo assalto de uma vaga que teve o primeiro capítulo no ano passado, com
Escolha Mortal e
Os Três Enterros De Um Homem. Mas tal como estes,
O Assassínio De Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford já pouco tem a ver com os westerns clássicos: esqueçam os nascimentos das nações, os tiroteios com os índios, ou os assaltos a comboios. Agora, o Velho Oeste serve como metáfora à redenção humana e às viagens introspectivas do ser humano.
Jesse James, aqui interpretado por Brad Pitt, foi a primeira estrela pop da história recente do Homem: no século XIX, o fora-de-lei, pistoleiro exímio e assassino impiedoso tornou-se no americano mais famoso a seguir a Charles Dickens e integrou o folclore norte-americano em livros de bandas-desenhada, mitos urbanos e aparato jornalístico. O fenómeno aumentou quando um desconhecido, chamado Robert Ford (encarnado aqui por Casey Affleck), o alvejou cobardemente pelas costas: a sua casa tornou-se destino de romarias, o seu cadáver recebeu propostas exorbitantes de circos itinerantes e a sua morte foi trasnformada em peça de teatro.
Já tudo foi escrito sobre Jesse James e as suas aventuras já foram dramatizadas mil e uma vezes no grande ecrã. Contudo, o que nunca tinha sido contado era a história do seu assassino: quem era Robert Ford? Quais foram os seus motivos? Qual era a sua relação com Jesse James? Esta série de perguntas é respondida no magnífico ensaio de Andrew Dominik, um filme com uma cinematografia de eleição que grita por Terence Mallick por todos o lado.
O Assassínio De Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford é um filme contemplativo e poético, que deixa as imagens repousar, enquanto entram pelo nosso inconsciente adentro, infiltrando-se na nossa mente sem darmos por isso, enquanto as personagens se desenvolvem em complicados exercícios psicológicos. Apesar do que possa parecer,
O Assassínio De Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford pouco tem a ver com as matinés aventureiras de James; tem antes a ver com o facto de como Robert Ford o venerava, mas como teve que o matar para poder sobressair -
queres ser como eu ou queres ser eu?, pergunta-lhe James. É como aquela t-shirt que Axl Rose tinha que dizia
Kill Your Idols. Ou será que Ford, simplesmente, ansiava pela fama e glória que nunca conseguiria imitando apenas o seu ídolo? E até que ponto Jesse James não colaborou naquele assassinato, colocando-se a jeito para liviar o pesado fardo que carregava nos ombros e que o incomodavam cada vez mais?
Tão longo quanto o título (três horas que passam num instante),
O Assassínio De Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford é um filme em crescendo, que vai ganhando intensidade e espessura até à catarse final, que lhe dá uma aura operática e épica. E a juntar ao trabalho de câmara irrepreensível de Dominik (Mallick já pode morrer descansado, já tem um sucessor à altura), estão as interpretações fabulosas de Brad Pitt e Casey Affleck. O primeiro tem uma trasnformação assustadora na pele do temerário Jesse James, cuja paranóia vai aumentando exponencialmente ao longo do filme, até começar a causar-nos arrepios simplesmente por estar na mesma sala que nós; e Casey Affleck cria um boneco excepcional, com um sorriso pateta e ares de ingenuidade, numa personagem hibrida, que nunca nos deixa perceber muito bem no que se passa naquela cabeça de vento.
O Assassínio De Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford conta ainda com a presença em carne e osso de Nick-todo-o-poderoso-Cave (que também assina a banda-sonora), com a sua já famosa bigodaça, que dá ao epílogo do filme toda a razão de existir. Nota-se que o filme sofreu um pouco as exigências da sala de edição e é só por isso que a obra-prima não está completamente luzidia. Com algumas polidelas e o Le Big Mac ficava pouco para tanta fome.
Posted by: dermot @
1:59 AM
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