Terça-feira, Fevereiro 05, 2008
IMITAÇÃO DA VIDA:Título:
Imitation Of LifeRealiador: Douglas Sirk
Ano: 1959

Sou da opinião de que deveria haver um circuito regular de reposições de filmes antigos no cinema. Porque nem todos nós erámos nascidos nas décadas de 60 e 70 e porque existem filmes que merecem ser vistos na excelência da sala de cinema. Por isso, com tanta petição online desnecessária que anda por aí a circular em maisl em cadeia, será que não há ninguém capaz de criar esta?
Douglas Sirk foi um dos mais ilustres realizadores da época de ouro de Hollywood e, simultaneamente, um dos mais ignorados. Talvez agora, com a reposição em cinema da sua obra-prima,
Imitação Da Vida, a coisa mude de figura. Sirk é considerado por muitos como o pai do melodrama e
Imitação Da Vida é o seu exemplar mais preciso e cristalino, filme que explora o tearjerker à força toda através das relações humanas, colocando uma orquestra de violinos em todas as cenas dramáticas e, se possível, uma chuvada torrencial ou uma tempestade de neve.
Imitação Da Vida compartilha o seu código genético com cinco décadas de soap operas, desde
Dallas aos seus primos afastados brasileiros e venezuelanos (
Roque Santeiro,
Sassaricando,
Pantanal... era capaz de estar aqui uma tarde a despejar títulos de telenovelas). Isto pode parecer pejorativo, mas não o é porque é bem feito. E o principal factor de qualidade é o facto de não ser um filme datado como alguns da sua espécie: os temas mentém-se actuais e os diálogos poderiam ser ditos por qualquer um de nós no café hoje à tarde.
Imitação Da Vida tem como base de partida o american way of life, ou seja, aquilo a que nos anos 50 foi tomado como a consolidação do sonho americano: uma casa os subúrbios, com um pedaço de quintal à frente e uma cerca branca, e o núcleo familiar tradicional: o pai trabalhador, a mãe dona de casa e os filhos bonitos e bem-educados.
Douglas Sirk não é excepção, mas subverte esta situação, ao cruzar duas famílias despedaçadas que, juntas, vão almejar alcançar o tal sonho: Lora Meredith (Lana Turner), viúva, e a sua filha Susie (Sandra Dee), estão em Nova Iorque há pouco tempo procurando alcançar uma vida de fama e sucesso no mundo do espectáculo; e Annie Johnson (Juanita Moore), afro-americana e matrona daquela gente toda (uma espécie de Morgan Freeman, mas em mulher), e a sua filha mulata Sarah Jane (Susan Kohner) - maligna como o raio, capaz de fazer Damien borrar-se de medo -, procuram estabelecer-se de forma digna na vida, lutando contra a segregação racial.
Imitação Da Vida é uma epopeia de três horas que acompanha cerca de uma década na vida destas duas famílias a viverem sob o mesmo tecto como uma só, através dos seus altos e baixos. E apesar dos vários rumos que cada personagem toma, o certo é que todas procuram o mesmo: arranjar um homem, afectadas por formarem um núcleo familiar anti-tradicional. Que filme mais conservador e pró-direita, dirão alguns. O que é certo é que Lora não consegue arranajar marido, porque se preocupa mais com a sua carreira; Susie passa o filme todo perturbada com o facto de não saber o que fazer em relação aos beijos; Sarah Jane quer à força ser branca para poder formar um família normal, com filhos normais; e Annie quer que a sua filha arranje um bom partido, para não sofrer como sofreu.
Filmado de forma marcial e quase automática,
Imitação Da Vida não vacila um milímtero, como se cada ângulo ou movimento de câmara fosse feito com a total convicção de que só poderia ser assim e não de outra forma. Contudo, a sua grande riqueza é na exploração das personagens e da dimensão que dá às mesmas, dando-lhes tempo para crescerem e se estabelecerem dentro da narrativa, optando pelos seus próprios caminhos e não o contrário.
Existe ainda uma cena fantástica, em que Sarah Jane é espancada na rua pelo seu namorado (num filme tão feminino, não poderia deixar de haver a bicada machista), com um uso genial da banda-sonora (free-jazz com o volume no máximo a subsitutir a orquestra de cordas do resto do filme), que poderia muito bem pertencer a um filme do Bruce Lee.
Novela em formato filme, mas em bom,
Imitação Da Vida cruza personagens, histórias e subtemas (o mundo-cão do espectáculo, a segregação racial, a posição dominadora do Homem na sociedade...) sem nunca perder consistência, ritmo ou o fio à meada, formando um Le Big Mac recheado de bom cinema; do melhor que se fazia na clássica Hollywood.
Posted by: dermot @
12:19 PM
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