Quarta-feira, Janeiro 09, 2008
ERASERHEAD - NO CÉU TUDO É PERFEITO:Título:
EraserheadRealizador: David Lynch
Ano: 1977

Lembram-se do anúncio do B! Abacaxi? Aquele em que havia um tipo grávido, que era transportado para um teatro numa ambulância com um papagaio em vez de sirene, onde um enfermeiro-tenor anunciava que ele tinha parido uma menina cheia de saúde? Se não sabem do que estou a falar, o maravilhoso mundo do youtube ajuda-vos
aqui. Pois bem, sempre que vejo este anúncio lembro-me de
Eraserhead - No Céu Tudo É Perfeito.
Eraserhead - No Céu Tudo É Perfeito é o filme debutante do realizador de culto David Lynch, um filme que nos introduz ao mundo estranho do seu criador, dando um pontapé na lógica ao socorrer-se do absurdo e do non-sense para criar esta obra-prima do surrealismo.
Podemos recorrer a Buñuel - e a
Um Cão Andaluz, mais propriamente - para situar esta obra; no entanto,
Eraserhead - No Céu Tudo É Perfeito não se enquadra bem nos moldes surrealistas do espanhol. Enquanto
Um Cão Andaluz tentava ser uma amálgama de experiências mais ou menos aleatórias, que tinha como único intuito provocar no espectador sensações de repulsa,
Eraserhead - No Céu Tudo É Perfeito cria uma narrativa mais ou menos linear, onde as coisas, aparentemente, fazem sentido nem que seja na cabeça do seu realizador (apesar de Lynch dizer que nem todos os elementos têm que contribuir para o objectivo central da obra). Contudo, uma coisa é óbvia:
Eraserhead - No Céu Tudo É Perfeito é um filme perturbador, o mais esquisito filme de terror de sempre. Esqueçam o horror gráfico e o horror sugerido e conheçam o horror sensorial.
Eraserhead - No Céu Tudo É Perfeito é um herdeiro formal do humor burlesco da comédia física de Keaton e Chaplin, situada num indefenido cenário industrial, amorfo e fumarento. Contudo, o preto-e-branco é usado aqui com dois intentos: com o objectivo de transmitir ideias de modorra e uniformização ao cenário e à história; e com o objectivo de criar um maior contraste nos jogos de sombra e luz. De uma forma primitiva, podemos dizer que Lynch estava a ensaiar aqui a génese do psycho-noir, que iria aperfeiçoar com
Veludo Azul.
Aparentemente,
Eraserhead - No Céu Tudo É Perfeito é a estória de Henry Spencer (Jack Nance), um tipo reservado e com uma duvidosa estética capilar, que se deixa abusar por terceiros e tomarem as decisões por si. Quando se vê "forçado" a constituir família (graças a um filho mutante(!)), Henry vai-se ver encurralado entre um mundo real e um mundo de fantasia, onde encontra o escape no mundo interior do seu radiador(!!).
Eraserhead - No Céu Tudo É Perfeito é um filme perturbador e desconfortável, por vários motivos: pelos elementos nojentos que Lynch insere na trama, pela escuridão macabra da fotografia (olá expressionismo alemão) e pelo ruido constante. Aliás, o filme é, provavelmente, o filme com mais poluição sonora de sempre, como se estivesse constantemente a passar nas redondezas uma famel com o escape furado.
Supostamente, apesar de nunca ter dado pistas para entender o filme,
Eraserhead - No Céu Tudo É Perfeito é um desabafo de Lynch sobre os seus traumas, obsessões e neuras - o "ódio" pela Filadélfia industrial, a fobia de constituir família (este filme é o derradeiro pesadelo a ultrapassar por todos os casais que estejam a pensar em serem pais), a insegurança perante o núcleo familiar tradicional... O que é certo é que, enquanto objecto fílmico,
Eraserhead - No Céu Tudo É Perfeito é muito poucochinho. É antes um objecto sensorial, uma experiência metafísica que nos limita às simples sensações do ver, ouvir e, consequentemente, sentir. Não esperamos é que em casos destes tais experiências nos causem desconforto e repulsa. Mas vendo bem, era este o intuito, ou não fosse o filme um descarregar de forças negativas. Sendo assim, o McChicken até faz algum sentido.
Posted by: dermot @
3:15 PM
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