Terça-feira, Janeiro 29, 2008
DAQUI P'RA FRENTE:Título:
Daqui P'ra FrenteRealizador: Catarina Ruivo
Ano: 2008

Nem sei por onde começar este texto sobre
Daqui P'ra Frente, o sucessor de
André Valente, o filme de estreia de realizadora Catarina Ruivo que eu ainda não vi, mas que entretanto já perdi toda a vontade de ver depois deste. Vou talvez começar pela única coisa positiva: Adelaide de Sousa. Adelaide de Sousa é uma das nossas boas actrizes, bonita e talentosa, que era bem capaz de benefeciar de um star system, se o nosso cinema tivesse um. Como não temos, é vê-la perdida por séries de televisão duvidosas e alguns filmes não muito famosos.
O princípio de
Daqui P'ra Frente não é auspicioso e deixa-nos logo um mau prenúncio do que nos espera. Vemos Adelaide de Sousa a deambular de noite, a chegar à entrada de um prédio, a aperceber-se que se esqueceu das chaves, a sentar-se na soleira e a adormecer. E então, temos uma cena de vários minutos (chegam a parecer horas), com um plano fixo em que observamos Adelaide de Sousa a dormir. Desde o anoitecer até ao amanhecer. Sem se passar nada. Por momentos, parece estarmos perante um remake reduzido de
Dormir, o filme de seis horas em que Andy Warhol filmou um tipo a dormir.
(Aparentemente)
Daqui P'ra Frente é um filme sobre Dora (Adelaide de Sousa), uma vivida esteticista e ferrenha activista política de uma pequena célula partidária do Partido Esquerda Unida no Montijo, e António (Antonio Figueiredo), um sorumbático e calmo polícia. O trabalho dos dois faz com que ambos se desencontrem mais vezes do que se encontrem e o casamento de ambos vai começar a desmoronar-se...
A sinopse não é nada de novo, nem tão-pouco apelativa. Mas não é isso que nos faz deixar de ir ao cinema, nem tão-pouco é condição essencial para um bom filme. Contudo,
Daqui P'ra Frente resume-se a ser uma sucessão de acontecimentos intercalados da vida do casal, cujo único ponto em comum é verem-se muito pouco. Sabemos que a ideia era fazer-nos aperceber da desfazamento daquela relação, mas a única coisa que nos parece é que ambos têm uma vida demasiada aborrecida.
Infelizmente, não é só o argumento que prima pela falta de vigor. Há uma tentativa de criar dois mundos paralelos: o de Dora, sempre muito colorido graças aos seus vestidos de cores alegres e decotes generosos, e o de António, sempre muito soturno e mergulhado nas sombras. Contudo, este último tem sempre mais aspecto de resultado de um mau director de fotografia do que de outra coisa. Depois há o autêntico desastre que é a montagem, que esquarteja completamente o filme.
Daqui P'ra Frente é uma sucessão de várias (demasiadas) cenas de poucos segundos em que não se passa nada e praticamente sem relação entre elas, que quase nem têm ordem cronológica. Durante um filme de hora e meia é bem provável que decorram vários meses de história. E sem saltos cronológicos.
Daqui P'ra Frente parece um teledisco da MTV em que não se passa nada.
O filme assume ainda contornos ridículos quando são inseridos no argumento elementos estranhos e completamente caídos do ar, sem qualquer motivo aparente nem objectivos dramáticos de relevo: tendências homossexuais metidas a martelo (porque qualquer filme actual que queira ser da cena tem que ter gays), putos suicidas que têm por objectivo dizer o máximo de palavrões no menor espaço de tempo possível e o aprofundamento dramático de uma personagem secundária completamente inóquo e desnecessário. Também por lá anda uma piscadela de olho política, com uns planos sugestivos às sedes do PCP e do PSD, mas vou-me abstrair de comentar por não ter percebido - demasiado inteligente para mim.
Daqui P'ra Frente tem o aspecto de um acidente de viação. E o pior é que não se limita a ser mau, torna-se mesmo irritante. E ficamos tão irritados que depois começamos a implicar com tudo, como nas cenas em que António anda de mota e vem a 40 a hora e a sonorização é a de um carro de fórmula 1. Tivesse diálogos mais teatrais e
Daqui P'ra Frente seria o catálogo definitivo de todos os (maus) clichets do cinema nacional. Até o genérico final é triste, com uma animação manhosa no After Effects em que se esqueceram de colocar som. Lamento, mas não consigo comer mais nada para além do Pão Com Manteiga.
Posted by: dermot @
12:47 AM
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