Quinta-feira, Janeiro 03, 2008
CONTROL:Título:
ControlRealizador: Anton Corbijn
Ano: 2007

Normalmente, os bio-pics das estrelas da música que vemos no cinema representam-nos como seres divinos e génios astutos. Mesmo que retratem os seus podres, como Ray Charles ser um cocainómano (estou a falar de
Ray, obviamente), ou Johnny Cash ter enganado a sua esposa (e aqui de
Walk The Line), estes são sempre heróis intocáveis. Os tais super-homens, de que falava Nietzsche, os Jesus Cristo da idade contemporânea. No entanto, tal como da primeira vez que Jesus apareceu no cinema retratado com uma dimensão existencialista causou furor (alguém mencionou
A Última Tentação De Cristo?), também está a fazer furor a primeira vez que aparece no cinema um músico com dimensão humana.
Os mais atentos já descobriram de quem estou a falar. Obviamente, é de Ian Curtis, o carismático vocalista dos saudosos Joy Division, um dos últimos heróis românticos da história do rock, cuja existência atormendada veio agora dar origem a este bio-pic diferente, um bio-pic sobre o homem por detrás da música. Por isso, se está à espera de um filme sobre os Joy Division, não se iluda. Procure antes a caricatura (no bom sentido, atenção)
24 Hour Party People, se for esse o seu intuito.
Control é então sobre Ian Curtis, o homem e não o mito, encarnado por um irrepreensível Sam Riley (que, curiosamente, já havia sido Mark E. Smith, o líder dos The Fall (vénia vénia vénia) nesse mesmo
24 Hour Party People), que emula na perfeição o falecido Curtis, com todos os seus maneirismos, trejeitos e olhares. A pose é tão perfeita que, durante as recriações musicais, chegamos a ficar assustados com as semelhanças e, por vezes, parece mesmo que estamos a ver Ian Curtis naqueles míticos vídeos que já conhecemos de cor do youtube.
O filme foi feito com base nos testemunhos das pessoas em que mais podiamos confiar nesta situação - o realizador Anton Corbjin foi uma espécie de fotógrafo oficial dos Joy Division e, por isso, privou de perto com eles durante algum tempo; Deborah Curtis (aqui uma roliça Samantha Morton), a esposa de Ian Curtis, foi quem escreveu o livro no qual se baseia o filme; e Annik Honoré (Alexandra *suspiro* Maria Lara), a amante, foi consultora do filme); por isto,
Control não poderia pintar um retrato mais fiél de Curtis, dos seus medos, dos seus conflitos existenciais, da sua incapacidade de suportar a pressão e da sua sensibilidade. Em suma, é o apanhado físico e psicológico perfeito daquele tipo
alto e algo esquisito, parafraseando um dos membros da sua banda da primeira vez que o conheceu.
Control é filmado a preto e branco e essa opção revela-se sem por cento acertada. E por vários motivos: primeiro, porque o preto e branco trasmite aquela ambiguidade de emoções, que tão bem funciona no film noir; segundo, porque dá uma ideia acertada da melancolia e marasmo do estigma industrial de Manchester, o cenário de toda a estória; e terceiro, porque confere uma aura romântica áquela personagem, que cola na perfeição com a poesia e a música dos Joy Division. Tudo isto parece ser filmado como Gus Van Sant filma os seus adolescentes, de forma passiva e quase voyerista, mas é antes resultado de uma inocência de quem faz as coisas por instinto - é a vantagem de ser cineasta autodidata, sem formação.
Mesmo para gente como eu, que não é particularmente admirador da música dos Joy Division - sempre fui mais do punk fuck you do que o punk I'm fucked -,
Control é um filme que nos agarra como a super-cola agarra cientistas ao tecto, um filme sufocante e quase frustrante, porque conseguimos chegar a entender o desespero daquele homem - um homem que estava perdido ao ponto de querer tanto acabar com a sua vida, que teve força suficiente para não fazer algo tão simples quanto esticar as pernas para não morrer. Por isso, mesmo que toda a gente saiba que no fim do filme o protagonista vai encontrar a fatalidade num estendal da roupa,
Control não deixa de ser obrigatório. Um obrigatório que num dia de maior fragilidade emocional o vai levar certamente ao Le Big Mac..
Posted by: dermot @
12:38 AM
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