Segunda-feira, Janeiro 21, 2008
BLACK SNAKE MOAN - A REDENÇÃO:Título:
Black Snake MoanRealização: Craig Brewer
Ano: 2007

Não sei quem é que escolhe quais os filmes que estreiam e os que não estreiam em Portugal, mas faz-me muita confusão como é que um filme em que a Christina Ricci passa o tempo todo de cuecas não estreia nos nossos cinemas. O filme em causa é
Black Snake Moan - A Redenção (novamente, um sub-título demasiado óbvio é acrescentado), que votla a obrigar Craig Brewer a apresentar-se aos cinéfilos portugueses pelas portas do fundo. E com tanta porcaria a infestar as nossas salas, tal opcção não se compreende.
Se não está a ver que filme é este, eu ajudo-o:
Black Snake Moan - A Redenção é um filme em que um bluesman temente a Deus, Lazarus (Samuel L. Jackson, o todo-poderoso, amén), acorrenta uma Christina Ricci semi-nua e ninfomaníaca ao radiador da sua casa. A coisa posta nestes moldes - e com o embrulho exploitation com que nos é apresentado (os cartazes, o genérico...) - pode parecer deveras série-b e, consequentemente, prometedor. Mas
Black Snake Moan - A Redenção é um filme muito mais inteligente que isto.
Para começar, é um filme sobre os blues. Não o género musical, mas o estado de alma que isso implica. O grande Son House (vénias até à exaustão) dizia que tanto precisava dos blues, do álcool e das mulheres no sábado à noite, como de Deus, da missa e da redenção no domingo de manhã. Esta frase faz todo o sentido e podia muito bem ser a premissa de
Black Snake Moan - A Redenção. Mas não é. É apenas o descritivo da personagem de Samuel L. Jackson, o típico homem negro do sul norte-americano, com resquícios do seu perosnagem bíblico em
Pulp Fiction.
Black Snake Moan - A Redenção ainda emula timidamente um ensaio sobre a dicotomia conservadorismo/liberalismo. Samuel L. Jackson ensaia a faceta conservadora, um último defensor dos velhos costumes, cujas aparições em cena são sempre ao som dos blues acusticos e genuínos do Mississipi; por sua vez, Christina Ricci é a face liberal, a mulher branca emancipada, que faz o que quer, escolhe os homens que quer levar para a cama e não houve ordens de ninguém, sempre ao som dos descendentes do blues-eléctrico de Chicago (com os Black Keys no pelotão da frente). No fim, a balança pende ligeiramente para o primeiro, o que pode valer ao filme o selo de cristão ou de direita. Não se rendam a isso - é apenas um filme!
Mas no fundo, no fundo,
Black Snake Moan - A Redenção é um filme sobre... redenção. E é isto que o trai. Porque se preocupa demasiado em criar cenas simbólicas e poéticas. Porque se às vezes isso resulta (Samuel L. Jackson a fazer uma versão de Blind Lemon Jefferson, com Christina Ricci aos pés, sobre uma trovoada, por exemplo), outras é um autêntico desastre (um concerto de blues transformado numa espécie de rave sensual é uma verdadeira ofensa).
Black Snake Moan - A Redenção deveria deixar-se fluir naturalmente, em vez de querer ser maior que a sua própria condição. O resultado disto é chegar ao final e ser, literalmente, uma consulta mal amanhada no psiquiatra.
Posto isto, urge então emendar a sinopse que fiz lá em cima. Black Snake Moan - A Redenção é então um filme sobre amor e perda, onde duas pessoas vão colmatar as suas lacunas emocionais à sua maneira - Samuel L. Jackson com Deus e Christina Ricci com sexo.
Black Snake Moan - A Redenção cheira a Nova Orleães por todos os frames (assim como cheirava
Uma Canção De Amor). Por isso podem esperar muita saloiada com estilo, ou seja, muitos calções à Daisy Duke e botas de cowboy (ou seja, white trash chicks), pickups e homens em camisolas de alças. Podem ainda esperar um grande filme de blues (eu aposto que conseguia escrever um ensaio sobre este filme ser uma metáfora ao blues, com o RL Burnside no centro, mas não o vou fazer porque não me parece que haja muita gente aqui interessada (ou que saibam quem é [provocação] o RL Burnside), com referências (a rodos) a RL Burnside (até Kenny Brown tem direito a cameo) e uma banda-sonora muito boa. E, claro, podem contar com cenas de sexo bruto e algo gráfico (com um bocadinho menos de sensibildiade poderia ser um sexploitation movie).
Infelizmente,
Black Snake Moan - A Redenção não é tão bom quanto prometia nem quanto deveria ser. Talvez o Double Cheeseburger seja um castigo demasiado pesado, mas é como quando as equipas jogam bem e mesmo assim perdem o jogo. A lógica da opinião cinematográfica é como a lógica do futebol: uma batata.
Posted by: dermot @
6:10 PM
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