Quarta-feira, Janeiro 30, 2008
AELITA:Título:
AelitaRealizador: Yakov Protazanov
Ano: 1924

Se procurarmos traçar uma linha evolutiva e por ordem cronológica dos filmes de ficção-científica,
Aelita surgirá logo a seguir às coisas de Meliès. Realizado em 1924 pelo russo Protazanov,
Aelita foi um mega-sucesso comercial na União Soviética (uma espécie de blockbuster quando comparado com os filmes intelectuais de Eisenstein ou Vertov), tornou-se numa das grandes referências do género, desde
Metrópolis (a cidade estratificada segundo um sistema feudal) a
Flash Gordon (o guarda-roupa), passando pelos seus sucessores soviéticos (Tarkovsky e o seu
Stalker), e foi o grande responsável por uma remessa de meninas recém-nascidas baptizadas com o mesmo nome.
Aelita desenvolve-se paralelamente entre a Terra e Marte: cá em baixo vive Los (Nikolai Tsereteli), um engenheiro obcecado em construir um foguetão que o leve até Marte desde que recebeu uma misteriosa mensagem do espaço - anta odeli uta, a mais célebre frase da ficção-científica a seguir a klatu barada niktu; e lá em cima vive a Raínha de Marte, Aelita (Yuliya Solntseva), fascinada em observar a vida dos terráqueos através de um telescópio especial recém-inventado. A cara
Helena compara este olhar fascinado com o olhar maravilhado das primeiras pessoas perante o cinema
neste breve texto, um olhar que tem sido perpetuado na história do cinema de ficção-científica, sempre que o Homem se depara com novos mundos ou civilizações (cristalizado em
O Homem Que Veio Do Futuro).
Se formos a ser exactos,
Aelita poderá não ser o primeiro filme de ficção-científica, mas será seguramente o primeiro a abordar viagens espaciais. E este será, provavelmente, o único (pelo menos o mais famoso) filme em que subverte a situação, uma vez que aqui são os terráqueos que viajam até Marte. Pela primeira vez, nós somos os alienígenas da equação.
Contudo, apesar de filme com laivos futuristas, a maioria da acção de
Aelita decorre em Moscovo, com a recente revolução civil como pano de fundo. Afinal de contas, o principal mote do argumento é o amor entre Los e a sua esposa Natasha (Valentina Kuindzhi), ou não fosse este o leitmotiv da maioria dos filmes até aos anos 60, num romance com ares de tragédia grega e com graves problemas de desenvolvimento cronológico.
Mas esta máscara irá cair na última metade do filme, com este a transformar-se num folhetim propagandista de ideiais socialistas. Esta intenção já era de adivinhar com a caricatura que faz às classes sociais - os burgueses são retratados como tipos corruptos, ladrões e mentirosos, em oposição aos trabalhadores solidários, bem-intencionados e humildes -, mas torna-se declarado quando os humanos chegam a Marte e derrubam um regime totalitário numa revolução comunista, implementando (e passo a citar) a União Marciana de Repúblicas Socialistas Soviéticas(!).
Apesar de politica e socialmente datado,
Aelita é um interessante filme e um documento essencial da ficção-científica, que com a banda-sonora adequada possibilita um serão mais longo do que era de esperar, ao apraz sabor de um McRoyal Deluxe.
Posted by: dermot @
3:47 PM
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