Quinta-feira, Janeiro 03, 2008
24 HOUR PARTY PEOPLE:Título:
24 Hour Party PeopleRealizador: Michael Winterbottom
Ano: 2002

Estimulado por
Control, não resisti em ir repescar à prateleira aquele que é o único bom filme de Michael Winterbottom (pelo menos dos que eu vi),
24 Hour Party People, o retrato da cena musical de Manchester, com Tony Wilson como personagem central.
24 Hour Party People é um filme tofu, ou seja, não é nem carne nem peixe. Quero eu dizer com isto que
24 Hour Party People é metade mockumentário, outra metade docudrama (para não falar das duas metades em que também é rockumentário). Por outras palavras,
24 Hour Party People é, como já alguém o definiu, um documentário hiperbolizado. Qer isto dizer que a fotografia que Michael Winterbottom tira daquela época muito particular cruza ficção e realidade, acrescentando de forma simbólica episódios que podem não ser totalmente verdadeiros. Porque como dizia John Ford,
se tiver que escolher entre a história e a lenda, publique a lenda.
Para quem não conhece Tony Wilson ou a cena de Manchester, aqui vai um resumo consiso. Interpretado genialmente por Steve Coogan, Tony Wilson foi um empresário de sucesso que esteve por detrás do melhor que se passou na cena musical de Manchester pós-1977. Ou seja, foi ele o criador da Factory Records, etiqueta que lançou os Joy Division ou os Happy Mondays, por exemplo, e foi ele quem fundou a Hacienda, discoteca incontornável na história da música contemporânea. Tony Wilson foi então uma das pessoas mais importantes na génese do pós-punk e da música de dança e de tudo o que está entre estes dois.
24 Hour Party People é então a história de Tony Wilson, mas não se debruça sobre a vida pessoal do homem. Este é antes o fio condutor e, simultaneamente, a âncora de toda a história. E também o próprio narrador. Mas não é um narrador normal; é antes um narrador distorcido do que estamos habituados a ver, que fala directamente com o espectador, conta-lhe o que vai surgir mais à frente no filme, dá-lhe informações sobre a vida real e sobre a ficção, transmite-lhe pormenores técnicos sobre a própria fita e faz rodapés cronológicos. Em suma, é uma espécie de Woody Allen demente que se estivesse a auto-parodiar.
É esta liberdade criativa de
24 Hour Party People que lhe transmite cor e alegria, mas sobretudo que lhe confere a aura criativa e enérgica que se vivia naquela altura em Manchester, uma cidade em claro declínio pós-industrial. Parece que as localidades marcadas pelo estigma industrial têm um qualquer efeito na criatividade artísticas dos seus habitantes, ora vejam o caso de Detroit ou do Barreiro.
24 Hour Party People é um excelente documento que recria livremente o que se passou de mais importante na cena de Manchester - o surgimento do pós-punk, que viria a influenciar muita coisa (os góticos, anyone?); a morte do carismático Ian Curtis; o surgimento da música electrónica, da rave-music e do DJ enquanto artista; e os Happy Mondays e Madchester -, que reconsitui os episódios mais simbólicos desta década (mesmo que não sejam verdadeiros) - os Happy Mondays a envenerarem os pombos da cidade; o contrato a sangue entre os Joy Division e a Factory; e o seu baterista a gravar
Control no topo do telhado do estúdio - e que tem momentos verdadeiramente divertidos e marcantes - como o remate final, em que Tony Wilson tem uma visão de Deus e que em apenas 5 minutos faz um resumo genial da sua personalidade e de todo o seu legado no mundo da música.
Não procurem
24 Hour Party People para um retrato fiél do que se passou. Vejam-no como uma caricatura e fruam de uma experiência semelhante à que se estivessem estado por dentro daquele movimento. Tal como
Control, este também é um Le Big Mac, mas com um sabor bem diferente.
Posted by: dermot @
7:18 PM
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