Domingo, Dezembro 23, 2007
PROMESSAS PERIGOSAS:Título:
Eastern PromisesRealizador: David Cronenberg
Ano: 2007

Os admiradores mais fiéis de David Cronenberg não ficaram muito satisfeitos com o incaracterístico thriller
Uma História De Violência, acusando o realizador de se ter rendido ao maistream. O que não deixava de ser irónico, tendo em conta que
Uma História De Violência era o seu melhor filme em muitos (dez?) anos. E, visto bem as coisas, até era um filme bem próximo da temática preferida de Cronenberg: a projecção do eunoutro corpo.
Se não gostou de
Uma História De Violência, o mais certo é não gostar deste
Promessas Perigosas, filme que segue as pisadas do seu antecessor, quer temática quer formalmente: um thriller que se sobrepõe ao próprio género, Viggo Mortensen num papel algo semelhante e uma espécie de ideia de que a violência é como um gene que se transmite.
Promessas Perigosas debruça-se sob o submundo da máfia russa nas ruas de Londres, que nos vai fazer começar a ir ao LIDL com muito mais cuidado. Naomi Watts é Anna, uma parteira que se vai ver envolvida numa rede de lenocídio, tráfico humano e prostituição, orientada pelo
rei do crime e cozinheiro Semyon (Armin Mueller-Stahl), o seu filho Kirill (Vincent Cassel) e o motorista deste, Nikolai (Viggo Mortensen).
Promessas Perigosas é um filme gelado e sem coração, feito com uma precisão milimétrica, como se Cronenberg quisesse captar a cristalização da violência, enquanto sentimento absurdo e sem sentido. E, talvez devido a isto, a realização do realizador canandiano é totalmente absorvida pelo trabalho dos actores, todos eles capazes de verdadeiros tours de force (com excepção de Naomi Watts, claramente o elo mais fraco). Obviamente que se nota o dedo de Cronenberg nas alturas mais explcítas, naquele seu tradicional gore realista, seco e cru - aqui personificado em muitos pescoços cortados.
O filme mergulha de cabeça na realidade da máfica russa, estando para esta como
O Padrinho está para a italiana. Mas é Viggo Mortensen quem acaba por subir ao pedestral, tendo vindo a tornar-se num dos actores mais ímpares dos últimos anos. Um dos últimos verdadeiros seguidores do método Stanislavski, Mortensen isolou-se incognitamente durante semanas a fio na Sibéria e nos Montes Urais, assimilando os sotaques de leste, a história das gangues russas e as tradições das suas prisões, criando um papél fantástico na pele de Nikolai, um duro motorista e guarda-costas, mas com um misterioso segredo no bolso de trás da sua vida.
Se tivesse sido pegado por outro realizador qualquer,
Promessas Perigosas teria sido, provavelmente, mais um daqueles filmes banais que tanto passam na TVI às quintas à noite. Mas, mesmo com Cronenberg ao leme, se Viggo Mortensen não estivesse lá naquele papel, seguramente
Promessas Perigosas não teriam o mesmo brilho. E tal como
Uma História De Violência tinha uma daquelas cenas que ficou para os anais da filmografia do realizador canadiano (a tal
violação consentida numa escadas),
Promessas Perigosas tem uma cena que ficará inscrita nos anais do próprio cinema: um arrepiante combate mano-a-mano entre um Mortensen nu e dois tchetchenos armados com facas afiadas, nuns banhos turcos.
Promessas Perigosas fica ali no limbo entre o McRoyal Deluxe e o Le Big Mac, pendendo ligeiramente para este último.
Posted by: dermot @
4:41 PM
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