Terça-feira, Dezembro 04, 2007
PLANETA TERROR:Título:
Planet TerrorRealizador: Robert Rodriguez
Ano: 2007

Eu sei que já toda a gente falou nisto e que já foram derramados litros de tinta para discutir sobre isto, mas é mais forte do que eu e não consigo evitar: a decisão de dividir
À Prova De Morte e
Planeta Terror foi a decisão cinematográfica mais estúpida do ano.
Planeta Terror e
À Prova De Morte são as duas faces do projecto
Grindhouse, um filme conjunto entre Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, que pretende recriar as quase já extintas double features, ou seja, sessões duplas de filmes duvidosos. Por isso, dividir isto em dois filmes distintos é como se chegasse um tipo e dissesse ao Soderbergh
ah e tal, afinal vamos lançar O Bom Alemão a cores, e ele contrapunha
mas aquilo é uma recriação do film noir, assim vai perder toda a identidade, e o outro explicava
sim, eu sei, mas os americanos não perceberam o conceito e nós vamos partir do pressuposto que os europeus são tão estúpidos quanto nós.
Agora que já desabafei, vamos ao que interessa: meses depois da sua estreia, eis que
Planeta Terror chegou finalmente aos cinemas de Setúbal. E em boa hora o fez; porque se se tivesse atrasado mais um mês, não o poderia pôr na minha lista dos melhores filmes do ano como o número um.
Planeta Terror recupera na perfeição a essência do cinema xunga, tão propelado nas tais sessões duplas, que no fundo se pode resumir a isto: muitas mulheres bonitas, com muita pele à mostra e muitos planos de rabos e mamas gratuitos (é bom ver que o espírito de Russ Meyer continua bem vivo); muita violência gráfica e estilizada, porque o gore nunca é demais; muitas armas e quanto maiores, melhor; muitos carros velozes; e muitas mulheres bonitas armadas, a andar em carros velozes e a matar indiscriminadamente.
Planeta Terror é um típico filme de zombies, mas que não se esgota no género: Bruce Willis é o Tenente Muldoon, no habitual papel de badass muthafucka (Bruce Willis é o Samuel L. Jackson dos brancos), que para além de ter morto Bin Laden com as próprias mãos(!), quer transformar toda a população do Mundo em zombies por uma qualquer razão que para aqui agora não importa - não por ser um spoiler, mas por ser insignificativa, como todo o enredo do filme. Por isso, convém que existam uns heróis que o tentem parar. E eles são, a saber: El Wray (Freddy Rodríguez), um tipo misterioso com especiais habilidades nas artes marciais e no tiro; Cherry Darling, uma go-go dancer com uma metralhadora em vez de perna (how cool is that?); Dakota Block (Marley Shelton), uma anestesista com uma pistola de seringas; e JT (Jeff Fahey), um cozinheiro reputado e dono da maior espelunca da estória dos restaurantes.
Completamente série b,
Planeta Terror é muita aparência e pouca essência. No entanto, nestes casos de entretenimento para se ver com o cérebro desligado, o que se pede não são personagens tridimensionais: são antes bonecos cheios de estilos, que compensem essa falta de espessura dramática. E estilo é com Robert Rodriguez, ou já se esqueceram de
Desperado? Em
Planeta Terror há camiões tir carregados de estilo até acima, que fazem
À Prova De Morte parecer uma coisa de crianças.
Como é sabido,
Planeta Terror (tal como
À Prova De Morte) tenta recriar em absoluto a experiência das grindhouses. Isto é o mesmo que dizer que toda a fita é, propositadamente, riscada até à exaustão (dando-lhe o nostálgico aspecto dos exploitation movies da década de 70), são perdidos frames e danificadas bobines, entre outros percalços de projecção. Mas
Planeta Terror não precisava de tudo isto, uma vez que já é visualmente apelativo. Principalmente a parte gráfica, onde o gore é levado ao extremo: os zombies são verdadeiros sacos de sangue, que explodem em cascatas vermelhas, como no saudoso
House Of The Dead.
Vamos então conferir a lista de coisas necessárias para um bom filme xunga:
Gajas boas - confirmado
Explosões regulares - confirmado
Armas grandes e carros velozes - confirmado
Sangue, muito sangue e algumas vísceras - confirmado
Violência gráfica e exacerbada - confirmado
One liners espirituosas - confirmado
Sensacionalismo barato - confirmado
Planeta Terror é o melhor entretenimento dos últimos tempos (anos, décadas, de sempre?), feito apenas e só para divertir o espectador. Por isso, não espere que tudo faça sentido na linearidade narrativa: se for necessário usar um camião que foi capotado há duas cenas atrás, utiliza-se e pronto. E se a personagem que na cena anterior estava a quilómetros de distância, desse agora um jeitão do caraças, vai-se buscá-la e pronto.
Além de filme de zombies,
Planeta Terror é ainda um filme catástrofe-survivor, descendente directo de
Nova Iorque 1997. E mesmo que a banda-sonora de Carpenter ficasse ali que nem uma luva, não nos podemos em nada queixar do trabalho de Rodriguez enquanto compositor, principalmente no que diz respeito à theme song, num surf-rock sujo e áspero, com um saxofone rachado.
Antecipo-me à minha lista de melhores do ano e digo já que este é o Royale With Cheese de 2007. E para não pensarem que ainda estou extasiado com o filme e que não digo mal de nada, vou terminar estas linhas com uma queixa: não gostei nada da personagem de Quentin Tarantino. Era dispensável tanta palhaçada forçada, no meio de já tanta palhaçada.
Posted by: dermot @
12:16 AM
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