Terça-feira, Outubro 23, 2007
O CAPACETE DOURADO:Título:
O Capacete DouradoRealizador: Jorge Cramez
Ano: 2007

Contagiado pelo entusiasmo de várias vozes cuja opinião prezo bastante, convenci-me de que
O Capacete Dourado poderia muito bem ser o grande filme português, não obstante do trailer não muito prometedor. Afinal de contas, ele vinha acompanhado de um invólucro gráfico bem apelativo, nada normal no nosso cinema.
O Capacete Dourado é a história de Jota (Eduardo Frazão), um rebelde sem causa, o que diga-se de passagem, hoje em dia faz tanto sentido quanto um frigorífico no Pólo Norte (não é por acaso que ninguém leva a Avril Lavigne a sério). Jota pertence a uma gangue de jovens motards, não leva a escola a sério, não tem lá muito respeito pelo seu pai e gosta de fazer avarias. Entretanto, irá conhecer a bela Margarida (Ana Moreira), a problemática e anorética filha do reitor da escola. Enquanto ele é todo exterior, ela é toda interior, e por isso complementam-se um ao outro. Só que o amor de ambos vai encontrar barreiras, como o de Romeu e Julieta...
O Capacete Dourado tem sido muito comparado ao cinema de Nicholas Ray, aos jovens inadaptados e pouco condescendentes de
Fúria De Viver e
Filhos Da Noite. No entanto, a última vez que um filme português foi comparado a Ray, a coisa não correu muito bem (estou a falar de
98 Octanas). Pois bem, aqui a coisa também não corre nada bem, porque
O Capacete Dourado não faz lembrar em nada o cinema de Hollywood dos anos 50. Mesmo que o realizador diga que a cena da pesca pareça technicolor. Novidade: não parece! O mais semelhante é mesmo um bailado de motas, ao som do
Danúbio Azul, mas que é melhor a ideia do que o resultado.
Sejamos sinceros: o que não cola mesmo ali é o boneco da personagem principal. Porque ninguém que tenha uma 125 usa um capacete daqueles. Quer dizer, pelo menos um rúfia que queira ser levado a sério...
Um dos argumentos que me fez acreditar em
O Capacete Dourado, foi que este seria o primeiro filme português sem diálogos teatrais. Isso é verdade; pela primeira vez existem diálogos convincentes e escorreitos, mas bem que podiam ter feito mais takes e cortado os gaguejares dos actores. Porque ninguém se engasga tanta vez a conversar com os amigos. E a cena dos dois carochos a falarem sobre figos roubados é a mais confragedora do cinema português desde um infeliz cameo de Joaquim Leitão (e cá estamos outra vez a falar de
98 Octanas).
Confesso que também não percebi a opcção por dar uma personagem gaga à
professora Alexandra Lencastre, como se Cramez estivesse a tentar completar uma caderneta de esteriótipos no corpo docente do filme.
O Capacete Dourado é um filme deprimente e, arrisco a dizer, pretensioso, onde tudo decorre a passo de caracol; e num filme que é extremamente curto, assusta ver a quantidade de espaços residuais que existem (como a cena final da festa, em câmara lenta, que começa por ter piada, deixa de ter e ainda tem tempo suficiente para voltar a recuperar a piada). E depois tudo termina num final psicadélico, novamente com
Danúbio Azul por trás. Mas nem
O Capacete Dourado é
2001: Odisseia No Espaço, nem nós estamos nos anos 70. Por isso é que ninguém consegue tripar com um Happy Meal.
Posted by: dermot @
11:35 PM
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