Quarta-feira, Outubro 24, 2007
KENNY:Título:
KennyRealizador: Clayton Jacobson
Ano: 2006

Existem muitos bons filmes que nunca chegam a estrear em Portugal; e existem poucos maus filmes que não chegam a estrear em Portugal. É um paradoxo difícil de entender, mas ao qual temos que nos habituar. Felizmente, as novas tecnologias vieram aproximar-nos todos uns dos outros e deixar toda a informação ao alcance de uns simples cliques no rato.
O que eu estou a tentar dizer é mais ou menos isto: aproveitem os novos recursos informáticos, os sites de vendas on-line, ou outro meio qualquer para arranjar
Kenny, o êxito de bilheteira australiano do ano passado, que merece toda e qualquer visualização e cujas possibilidades de estrear em Portugal são praticamente nulas.
Kenny é um mockumentário (ou seja, um documentário fictício) sobre a mais improvável profissão que esperamos ver retratada num ecrã de cinema; Kenny Smyth (Shane Jacobson) ganha a vida a limpar as casas-de-banho portáteis que encontramos nos festivais de Verão ou em qualquer grande ajuntamento de pessoas (os famosos Toi-Toi). Não é uma profissão de merda, mas é uma profissão que lida com a merda de perto, como o próprio faz questão de relembrar várias vezes.
Com um tipo de humor refinado e irónico, semelhante ao de Porcos, Feios E Maus mas em bom,
Kenny retrata a vida corriqueira daquele trabalhador simples e honesto, ao longo do seu dia-a-dia, no seu trabalho e na sua vida pessoal. A estrutura de
Kenny assemelha-se em muito à de
Borat: ambos começam por ser um documentário focado num objectivo específico, mas que acabam por se espraiar à medida que novos elementos vão surgindo. No entanto, enquanto
Borat é uma caricatura desmiolada e screwball,
Kenny é um filme inteligente e sofisticado.
Kenny podia muito bem ser uma estória verídica; apesar de toda a ironia que trespassa o filme, todos aqueles episódios poderiam acontecer a qualquer um de nós (os problemas no trabalho, o encontro com um japonês que gosta muito de karaoke, idas a exposições mundiais de retretes, ou a doença súbita do pai). É certo que Kenny Smyth trabalha com cocó e sabe muito acerca de cocó, mas a sua personagem tem espessura suficiente para ser um tipo como nós e com o qual traçamos laços de afinidade ao longo do filme; e acabamos por sofrer com os seus infortúnios, a rejubilar com as suas alegrias e a torcer para que tudo dê certo com aquela tal hospedeira com quem se cruzou certa vez numa viagem de avião.
É incrível como ficamos mais de hora e meia absorvidos a ver a vida de um indivíduo que monta casas-de-banho de plástico em grandes eventos, vibrando com as suas vitórias e depirmindo-nos com as suas derrotas. É como a alienação dos reality-shows, só que por um motivo mais nobre.
Kenny é um mockumentário fantástico que me faz querer, cada vez mais, fazer o meu próprio mockumentário. Um dia, senhores, um dia... Entretanto, ide lá comer o vosso McBacon.
Posted by: dermot @
5:44 PM
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