Terça-feira, Outubro 30, 2007
JANELA INDISCRETA:Título:
Rear WindowRealizador: Alfred Hitchcock
Ano: 1954

Com uma obra tão grande e tão diversa como a do mestre Alfred Hitchcock, é praticamente impossível dizer quais são os melhores e os piores filmes, os que gosto mais e os que gosto menos. Qualquer escolha deste tipo obedece quase sempre a caprichos de ocasião e ao estado de espírito do momento. Assim, tendo em conta estes dois pressupostos, vou falar de um dos seus filmes mais aclamados e o meu favorito nesta manhã:
Janela Indiscreta.
Janela Indiscreta é um dos filmes a cores do mestre e é um dos primeiros trabalhos da última fase de Hitchcock; e, como típica obra que é, conta com várias características hitchcockianas, a saber: o voyerismo, a submissão do sexo feminino (aqui, as mulheres são sempre mandadas e nunca mandam, para além de serem o sexo fraco nos relacionamentos a dois) e o próprio par de protagonistas, com o mito norte-americano James Stewart e a futura-princesa-do-Mónaco Grace Kelly.
L. B. Jefferies (James Stewart) é então um conceituado fotógrafo-jornalista, aventureiro e destemido, que devido a um acidente de trabalho, está preso em casa há seis semanas, com uma parte do corpo engessada. Sem grande liberdade de movimentos, diverte-se a observar os seus vizinhos da sua janela das traseiras, que dá para um pátio castiço, que faz lembrar
O Pátio Das Cantigas. Existe a esbelta vizinha bailarina muito cobiçada pelos homens, o talentoso pianista com apetência pelas festas, a solitária e suicida vizinha de baixo e um vendedor com mau feitio e uma mulher doente.
É este último que chama a atenção de Jefferies, da sua enfermeira (Thelma Ritter) e da sua namorada (Grace Kelly), após vários comportamentos suspeitos que sugerem o assassinato da sua mulher. E limitado ao seu apartamento, Jefferies vai tentar resolver aquele mistério, utilizando as duas mulheres como as suas próprias extensões.
Hitchcock prova com mestria como é possível fazer um grande filme sem grande aparato. É certo que Sidney Lumet fez uma obra-prima sem sair da mesma sala (lembram-se de
Doze Homens Em Fúria?), mas Hitchcock não lhe fica muito atrás, limitado a um quarto e à sua janela. Além disso,
Janela Indiscreta é ainda um filme extremamente arquitectónico: com um cenário gigante, artificial e extremamente complexo, o filme faz lembrar os filmes tardios de Jacques Tati. Aliás, o pátio de
Janela Indiscreta faz lembrar a casa do senhro Hulot, em
O Meu Tio, pela forma como relaciona as tensões horizontais e verticais, cruzando vizinhos e levando-os a interagirem entre si.
Janela Indiscreta é ainda mais do que aparenta. Para além do thriller de suspense e mistério, é ainda um filme romântico sobre um relacionamento tenso e numa situação determinante, entre o fotógrafo bruto e a empresária sofisticada. E como se isto não bastasse, ainda tem o dedo de génio de Hitchcock, na forma como utiliza a banda-sonora, sendo ela inteiramente da responsabilidade do tal pianista que vive no apartamento em frente, como as bandas omnipresentes dos filmes de Emir Kusturica.
Obra superior,
Janela Indiscreta já deu azo a um sem número dos mais variados rip-offs (o mais recente é
Paranóia) e relega, inclusive,
A Vítima Do Medo para o segundo lugar do pódio dedicado aos melhores filmes voyeristas de sempre. Para esquecer só mesmo o datado confronto final. Mas se conseguir ultrapassar esse fugaz cheiro a mofo, não se arrependerá com a realeza do Le Big Mac.
Posted by: dermot @
12:24 PM
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