Quinta-feira, Outubro 11, 2007
A ENCRUZILHADA:Título:
CrossroadsRealizador: Walter Hill
Ano: 1986
I went down to the crossroads, fell down on my knees.
I went down to the crossroads, fell down on my knees.
Asked the lord above for mercy, save me if you please.Há dias, andava eu a fazer tempo na FNAC, quando me mostraram o DVD de
A Encruzilhada, um filme dos anos 80 sobre blues, com o jovem Ralph Macchio. O meu espanto foi grande: como é que nunca tinha ouvido falar disso? Apressei-me a comprar o DVD e a vê-lo assim que cheguei a casa. E quando terminei as minhas dúvidas dissiparam-se: que dinheiro mais mal gasto! Não admira que nunca tivesse ouvido falar de tal coisa...
A Encruzilhada baseia-se livremente no bluesman Robert Johnson, o proclamado avô do rock'n'roll. Quem nunca ouviu falar dele devia ir fustigar-se com uma chibatinha; Robert Johnson foi o
primeiro bluesmen e foi, segundo a lenda, o primeiro a vender a alma ao Cornudo a troco de fama e sucesso.
A Encruzilhada pega neste pedaço do folclore do rock e romanceia-o, colocando Eugene Martone (Ralph Macchio) como um jovem amante de blues, que tenta descobrir a música perdida de Robert Johnson, recorrendo à ajuda do seu ex-companheiro, o harmonicista Willie Blind Dog Brown (Joe Seneca).
A premissa é muito boa e era difícil não fazer um bom filme com isto. Mas Walter Hill, inesperadamente (e digo isto porque o realizador tem no seu currículo alguns filmes assinaláveis), conseguiu meter os pés pelas mãos e
A Encruzilhada revela-se como um tiro saído pela culatra.
A Encruzilhada é o típico flick teenager dos anos 80, uma espécie de spin-off de
Momomento Da Verdade, mas com os blues em vez das artes-marciais - um jovem adolescente (curiosamente, o mesmo Ralph Macchio), que encontra inspiração num velho mestre para crescer na vida e ganhar maturidade suficiente.
Tudo em
A Encruzilhada é (assustadoramente) banal e previsível, esforçando-se por utilizar todos os lugares comuns do género, adaptando-os levemente à realidade do blues. Até uma estranha relação amorosa bidimensional (lembrando as relações de papelão que se fazem e desfazem com um simples estalar de dedos na maioria dos filmes portugueses dos anos 90, como por exemplo,
Tentação) acontece.
Depois também é difícil fazer um filme com feeling em pleno anos 80, a década em que a percepção do ridículo esteve adormecido - Ralph Macchio não tem pinta do que quer que seja e Joe Seneca dá melhor para avôzinho do que lenda do blues. Aliás, a bela Jami Gertz tem mais estilo nos seus jeans e botas texanas, do que os dois bluesmen juntos.
Tudo este martírio de diálogos copiados de um qualquer telefilme manhoso, má direcção de actores e um argumento aos trambolhões poderia compensar com o duelo final à guitarra entre o (pseudo)bluesman Ralph Macchio e um enviado do Diabo, se não fosse este o próprio Diabo em pessoa: Steve Vai. Pior, só se fosse o Gary Moore. Fazer um filme sobre blues e ter o Steve Vai a tocar é mais feio do que cuspir na sopa. Era como fazer um filme sobre futebol e convidar o Maxi Pereira para estrelar... Uma anedota.
A Encruzilhada vale então pela banda-sonora sempre superior do mítico Sonny Terry (vénia) e do magistral Ry Cooder e pelo ambiente sulista, à la
Irmão, Onde Estás?, que está estranhamente bem recriado. Tudo o resto é um insulto aos blues. Claramente, Walter Hill não vendeu a alma ao Chifrudo para fazer este filme. O máximo que pode ter feito foi tê-la trocado por um Happy Meal.
Posted by: dermot @
11:04 PM
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