Quarta-feira, Outubro 31, 2007
A CANÇÃO DE LISBOA:Título:
A Canção De LisboaRealizador: José Cottinelli Telmo
Ano: 1933
A Canção De Lisboa é o filme que completa a tríade dos clássicos do cinema moderno português. Enquanto que
Aldeia Da Roupa Branca tem uma palete de canções perfeita e
O Pátio Das Cantigas uma série de gags memoráveis,
A Canção De Lisboa consegue conciliar a parte musical e o entrecho humorístico em doses iguais e equilibradas: toda a gente conhece músicas como
Fado do Estudante (presente no reportório de toda a tuna que se preze), ou tiradas como a de
chapéus há muitos, oh palerma!Existem dois tipos típicos de portugueses: o coitadinho, a quem a vida é madrasta; e o chico-esperto, que pensa sempre ser mais esperto do que os outros. Nas últimas décadas, o cinema nacional tem preferido os primeiros (a Teresa Villaverde, principalmente), talvez por ser uma existência muito mais nobre. Afinal, toda a gente gosta de mártires... Mas durante os anos 30, a comédia portuguesa preferiu sempre os segundos. E tiveram bem melhores resultados.
Vasco Leitão (Vasco Santana) é então um desses chico-espertos, um estudante de medicina boémio, bonacheirão e aldrabão, que vive de esquemas e da boa vontade das tias transmontanas, que continuam a enviar-lhe dinheiro convencidas de que o sobrinho é já um médico respeitável e bem sucedido. Por isso, quando estas o vêm visitar a Lisboa, Vasco fica metido em sarilhos. O que vale é que o pai (António Silva) da sua namorada (Beatriz Costa) e o cínico sapateiro (Alfredo Silva) se vão prestar a ajuda-lo, mas obviamente mais interessados na herança das velhas.
A Canção De Lisboa é uma comédia destrambolhada, herdeira afastada (do melhor) da revista à portuguesa, que capta na perfeição o espírito e a identidade portuguesa: a vida estudantil de Lisboa (não confundir com tradição académica, porque para isso há o anedótico
Rasganço), os arraiais dos santos populares, os bairros antigos alfacinhas, ou o modo de vida tipicamente português, do fado ao vinho. Recheado de gags memoráveis e divertidos, cujo imaginário cultural e popular se apoderou automaticamente,
A Canção De Lisboa é ainda o campeão dos trocadilhos, em diálogos perfeitos e igualmente escorreitos.
Foi ainda este filme que consolidou como estrelas o grande vulto da comédia portuguesa, Vasco Santana, e a nossa única diva do cinema, a bela Beatriz Costa, confirmando ainda o talento ímpar de António Silva. Quem por lá anda também, numa aparição fugaz, é Manoel de Oliveira. E pelos seus cinco minutos de representação, percebos porque é que o ancião realizador português diz não acreditar na direcção de actores: porque o próprio não tem noções de representação.
A Canção De Lisboa é a (quase) obra-prima do cinema português. E se vivêssemos num país que soubesse apreciar o que é seu, seria o filme que passaria na televisão em todos os natais. Era um estatuto bem mais merecedor do que um Le Big Mac.
Posted by: dermot @
12:48 PM
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