Domingo, Outubro 21, 2007
AMOR À QUEIMA-ROUPA:Título:
True RomanceRealizador: Tony Scott
Ano: 1993

Em 1992, sem dinheiro para fazer aquilo com que sonhava (leia-se realizar um filme), Quentin Tarantino decidiu vender o argumento daquele que seria o seu primeiro filme. Tony Scott comprou-o e realizou
Amor À Queima-Roupa; e com o dinheiro, Tarantino realizou
Cães Danados.
Amor À Queima-Roupa é um claro filme de Tarantino, realizado pelo Tony Scott pré-fase rei dos filtros e efeitos de câmara, quando este era apenas o rei do blockbuster de Hollywood, graças à fórmula descoberta em
Top Gun - Ases Indomáveis: filmes com doses iguais de drama, amor, lágrimas vertidas e sorrisos de orelha a orelha. E
Amor À Queima-Roupa não foge à regra, terminando com um final feliz cheesy, sob um pôr-de-sol numa praia deserta.
Amor À Queima-Roupa é um filme de amor, versão demente. Mas não deixa de ser uma grande história de amor. Clarence Worley (Clarence Worley) é um nerd viciado em banda-desenhada, filmes de artes-marciais e no Elvis Presley, que depois de se apaixonar à primeira vista pela call-girl Alabama Whitman (Patricia Arquette), decide matar o seu chulo, o whitey Drexl (genial Gary Oldman). Claro que depois a coisa complica e transforma-se numa complicada trama de sub-enredos, que envolve a máfia, a polícia, produtores de Hollywood e um Brad Pitt ganzado que não consegue sair do sofá, naquela fórmula neo-noir-urbano com a qual Guy Ritchie se tornou conhecido.
A dupla romântica Clarence-Alabama faz lembrar outras duas: a de Sailor e Lula, de
Um Coração Selvagem, e a de Mickey e Mallory, de
Assassinos Natos - dois jovens inadaptados que perseguem o sonho americano, versão fora-da-lei, ou não fossem os Estdos Unidos um país fundado por burlões, corruptos e escroques.
Amor À Queima-Roupa é então um filme cheio de violência, tiros, mortos, palavrões e muito sangue derramado. Em suma, aquilo que nós, mentes distorcidas, gostamos.
Visto à distância,
Amor À Queima-Roupa é, claramente, um filme de Quentin Tarantino, onde identificamos váiros elementos seus: Clarence conhece Alabama numa sessão tripla de cinema (
Grindhouse é uma sessão dupla), dedicada a Sonny Chiba,
o maior actor de artes marciais da actualidade (recrutado em
Kill Bill); Chris Penn ou Cristopher Walken fazem os papeís que fariam em
Cães Danados e
Pulp Fiction; e, claro, os diálogos míticos e iconográficos. No entanto,
Amor À Queima-Roupa teve a triste sina de ir parar às mãos de Tony Scott, um realizador que se rege pela cartilha cinematográfica e cujas noções de dinâmica, vanguardismo ou inovação se limitam a uns filtros manhosos e a tremer um pouco a câmara.
Falta então ao filme as doses industriais do estilo que devia ter, até porque conta com um elenco notável, cheio de bonecos geniais (para além dos já citados Gary Oldman e Brad Pitt, referência ainda a James Gandolfini numa espécie de primeira abordagem ao seu senhor Soprano). Aonde isso se reflecte com mais nitidez é na banda-sonora, onde os Soundgarden, o Billy Idol e os Aerosmith soam sempre deslocados. Em contrapartida, o retrato que Tony Scott faz de Detroit na primeira parte do filme é magistral, num ambiente decandente-urbano, uma espécie de cidade-fantasma a viver o estigma industrial e com uma theme song genial, remeniscente de
Noivos Sangrentos.
Amor À Queima-Roupa poderia ser apenas mais um filme, se não fossem alguns apontamentos de autor (e o próprio Elvis como mentor imaginário). Por isto, é um McBacon para todos os amantes de Tarantino e para aqueles a quem Tony Scott não é totalmente repulsivo.
Posted by: dermot @
6:34 PM
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