Domingo, Setembro 23, 2007
A SEVERA:Título:
A SeveraRealizador: José Leitão de Barros
Ano: 1931

Por alturas do Estado Novo, havia dois tipos de cinema em Portugal: de um lado as comédias, filmes descontraídos e bem-dispostos, que procuravam criticar o regime de forma astuta e subtil, para desespero do ministro da cultura, António Ferro; e do outro, filmes de
elevado valor cultural, que louvavam a identidade nacional e a pátria, através de adaptações literárias consagradas ou de reconstituições históricas.
Este segundo grupo era encabeçado por José Leitão de Barros, o mais importante realizador português da altura e o principal protegido de António Ferro e Salazar, que também era um apreciador de cinema, mas que tentava não o mostrar, porque o líder de uma nação não se deve distrair com coisas frívolas. Por isso, não foi de estranhar que o Leitão de Barros tenha recebido o apoio financeiro suficiente para ir filmar
A Severa à Tobis francesa, naquele que foi o primeiro filme sonoro português.
A Severa é a adaptação do romance homónima de Júlio Dantas, que se debruça sobre a vida e obra de Maria Severa, tida como a fundadora do fado de Lisboa e a responsável por o ter tirado da marginalidade e o ter elevado a património nacional. Ou seja, que melhor tema para se abordar no primeiro filme sonoro português do que a origem de um dos três efes de Portugal, o fado?
Maria Severa (encarnada por Dina Teresa) era aquilo a que se chama convencionalmente de
uma mulher com pêlo na venta: uma protituta de origem cigana da Mouraria lisboeta, que fumava, batia nas mulheres e escolhia com quem ia para a cama. No entanto, a forma como cantava e tocava guitarra tornaram-na num ícone e levou-a a um triângulo amoroso perigoso, com o Conde da Marialva (António Luis Lopes) e uma fidalga aristocrata (Mariana Alves).
A Severa é uma crónica visual que não se limita a este romance de faca e alguidar, uma vez que perde mais tempo a tirar o retrato social de Portugal no final do século XIX, por entre as touradas cheias de protocolo, as lezírias e os campinos ribatejanos e as festas maçadoras nos palácios da nobreza. Tudo isto é filmado com uma bonomia que por vezes se torna irritante, como na cena final da tourada, em que nos aborrecemos de morte de ver o touro a ser espetado de todas as formas e feitios.
O filme abre de forma soberba, onde se vê que Leitão de Barros era um adepto fervoroso de John Ford: a caravana de ciganos a cavalgar em contra-luz com o pôr-de-sol podiam muito bem ser os cowboys dos westerns norte-americanos e bastava aos campinos trocarem as varas pelo arco e flecha enquanto guiavam os touros, para se assemelharem aos peles vermelhas americanos a caçarem búfalos. No entanto, o virtuosismo de Leitão de Barros fica por aqui, porque depois limita-se a seguir as regras que ainda hoje fazem escola na velha guarda do cinema português (com Manoel de Oliveira à cabeça): planos enquadrados em que a câmara parece ter vergonha de se mexer, interpretações teatrais de grande aparato e a tradicional história da coitadinha, em que chateia tanta resginação pela fatalidade.
Há quem diga que
A Severa é o filme mais português de sempre. Não concordo nem um pouco; apesar da reconsituição histórica de todo o folclore nacional e de uma fotografia cativante da Mouraria,
A Severa em nada bate a comédia nacional dos anos seguintes, de
O Pátio Das Cantigas a
O Pai Tirano. Eis, por conseguinte, a razão do Double Cheeseburger.
Posted by: dermot @
10:10 AM
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