Sexta-feira, Setembro 28, 2007
RELÍQUIA MACABRA:Título:
The Maltese FalconRealizador: John Huston
Ano: 1941

Toda a gente sabe que um film-noir que se preze começa com um detective privado entregue aos seus pensamentos (de preferência ao fim do dia, com as sombras do lusco-fusco a enquadrarem-lhe o rosto), quando uma senhora vistosa irrompe pelo seu escritório e lança-o numa aventura perigosa e emocionante. E que filme definiu essa regra? Nem mais,
Relíquia Macabra.
De facto,
Relíquia Macabra não é só um film-noir; é
o filme noir (reparem no itálico do artigo definido).
Relíquia Macabra é a génese de
Chinatown e de
Pulp Fiction, dois dos melhores neo-noirs da história do cinema: um argumento exemplarmente bem escrito, diálogos memoráveis e um Humphrey Bogart cheio de estilo. Tudo isto dirigido por um principiante John Huston, que iniciava assim a sua jornada rumo ao Olimpo dos realizadores, com um (aparentemente) inofensivo remake.
Humphrey Bogart é então Sam Spade, um detective privado, que é contratado por uma misteriosa femme fatale, Brigid O'Shaughnessy (Mary Astor num claro erro de casting), para seguir o suposto amante da irmã. No entanto, como em qualquer film-noir, nada é o que parece, e Sam Spade vê-se envolvido numa complicada intriga, que envolve uma valiosa relíquia - o tal Falcão Maltês - e vários pretendentes a dono (geniais Peter Lorre (vénia encarpada com saída à rectaguarda) e Sydney Greenstreet).
As sombras do filme mergulham todas as personagens num contraste a preto e branco, que sugere desde logo segredos escondidos em todos eles. E aqui, mais do que a informação e a contra-informação que vai surgindo a um ritmo trepidante, o que interessa descobrir é o que cada um esconde do seu passado. E neste ponto,
Relíquia Macabra ganha pontos, com as suas personagens tridimensionais.
Depois há Humphrey Bogart, num documento essencial do que é ser cool. Bogart cria em
Relíquia Macabra o primeiro grande herói de acção, um tipo cheio de estilo, de pose hedonista, sempre com um sorriso na cara e um cigarro pendurado na boca, que não perde uma oportunidade para atirar uma one-liner mordaz e irónica (uma espécie de Bruce Willis, mas com glamour). A cena em que Bogart esmurra pela primeira vez Peter Lorre é o melhor exemplo do que estou a tentar descrever.
Curiosamente, a sua personagem é ainda tudo aquilo que menos esperávamos: um mulherengo, que tinha um caso com a esposa do seu sócio; e um tipo cuja principal preocupação é o dinheiro e não a nobre atitude de ajudar os fracos e oprimidos. É o primeiro grande exemplo do anti-herói.
Os filmes como
Relíquia Macabra costumam ter um problema, que é difícil contornar: o final. Normalmente, os realizadores (e argumentistas) têm tendência a optar pelo final feliz e óbvio ou, como está ultimamente na moda, pelo twist final, que quanto mais rebuscado melhor. Mas
Relíquia Macabra consegue ser interessante, sem ser previsível nem recambulesco, rematando todo o filme com uma das mais imortais citações do cinema:
é disso que são feitos os sonhos. Os Royales With Cheese, claro.
Posted by: dermot @
12:03 PM
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