Terça-feira, Setembro 25, 2007
MYSTERIOUS SKIN:Título:
Mysterious SkinRealizador: Gregg Araki
Ano: 2004

Ultimamente, por alguma razão mais ou menos obscura que ainda não consegui perceber, o cinema independente tem tido uma estranha fixação pela homossexualidade. E quanto menos ortodoxa for, melhor. E neste ponto,
Mysterious Skin ganha por KO técnico.
Para já,
Mysterious Skin arrecada o prémio de filme mais perturbador do ano. Este é a estória paralela de dois jovens ao longo de uma década, o rebelde Neil (Joseph Gordon-Levitt) e o nerd Brian (Brady Corbet). Aos 8 anos, ambos compartilharam um episódio traumático, que lhes deixou um buraco negro no lugar do coração (ou da memória, conforme o caso). E isso fez com que, apesar de viverem vidas paralelas, vivessem vidas semelhantes, como se pertencessem a dimensões opostas.
Mysterious Skin faz lembrar aquela memorável fala de
Capote, em que ele justifica a sua amizade com um dos assassino dizendo
é como se tivéssemos vivido na mesma casa, mas eu sai pela porta da frente e ele pela de trás.
Talvez no final desta linha pareça que eu revelei o final da estória, mas acredite que não -
Mysterious Skin mergulha na psicanálise das experiências traumáticas da violação infantil, mas leva-a mais longe, principalmente pelo caminho da sexualidade precoce. E se aqui é deveras inquietante, quando o filme evolui cronológicamente, torna-se deveras perturbador, ao mergulhar no mundo da prostituição masculina, como se fosse uma versão mais gráfica e mais crua de
O Cowboy Da Meia-Noite.
Mysterious Skin é ainda um filme sobre a falta de coração. Numa pequena aldeia no interior dos Estados Unidos, um daqueles lugarejos tão isolados que se consome a si próprio, uma mão cheia de inadaptados (cada um à sua maneira), vivem com um cubo de gelo em vez do coração.
Durante cinco anos, Joseph Gordon-Levitt foi um dos desmiolados extraterrestres a viverem ilegalmente na Terra, na hilariante série
Terceiro Calhau A Contar Do Sol. Era o tempo suficiente para ficar para sempre colado áquele boneco. E, aparentemente, Joseph Gordon-Levitt parecia não conseguir vingar além dos filmes adolescentes patetas. Por isso, quando o
Flávio escreveu que ele seria o próximo Marlon Brando eu pensei que ele tinha endoidecido (o Flávio, não o Joseph Gordon-Levitt). Mas agora, depois de ver
Mysterious Skin, foi como se tivesse tido uma epifania; é como se aquele miúdo enfezado se tivesse transfigurado num James Dean em potência, com aquele ar malandro de quem se está a cagar para o Mundo e com muito estilo. A seguir com atenção.
Mysterious Skin é ainda superiormente filmado, com uma saudável apetência pelos grandes planos e uma banda-sonora bem escolhida, mantendo um ritmo forte e seguro até ao final. Para já, um Le Big Mac e um lugar na lista dos melhores do ano. E agora que olho para a ficha técnica do filme é que reparo: que faz um filme de 2004 a estrear três anos depois? Ai Portugal, Portugal...
Posted by: dermot @
11:32 PM
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