Quinta-feira, Agosto 16, 2007
O TRIUNFO DA VONTADE:Título:
Triumph Des WillensRealizador: Leni Riefenstahl
Ano: 1935

Leni Riefenstahl tem, provavelmente, o mais ingrato legado artístico da nossa era. Numa mão tem dois dos mais inovadores pedaços cinematográficos da história da sétima arte, dois documentos fundamentais no desenvolvimento e na evolução do cinema contemporâneo; e na outra, tem os mais terríveis panfletos de propaganda nazi jamais feitos, testamento de exaltação do regime de Hitler.
Para quem não sabe do que estou a falar, Leni Riefenstahl foi a realizadora oficial do Terceiro Reich, ou não fosse ela a cineasta favorita de Adolph Hitler. Sob a alçada do Führer, Riefenstahl realizou vários filmes sobre o regime fascista alemão, sendo o mais famoso
O Triunfo Da Vontade, documento fundamental da ideologia nazi, ao qual Hitler disponibilizou liberdade artística total e um orçamento bastante generoso. Por isso, Rienfenstahl é censurada e odiada por todos aqueles que no fundo a admiram pela sua qualidade cinematográfica.
Mas tal como o díptico
Ídolos Do Estádio, um documentário em duas partes sobre os Jogos Olímpicos de Berlim e com forte travo de propaganda, viria a marcar a forma de se fazer televisão (estabelecendo regras na filmagem de eventos desportivos, a que hoje estamos tão habituados a ver diariamente no pequeno ecrã),
O Triunfo Da Vontade estabeleceria uma nova forma de se fazer cinema. Tecnicamente, é um documento fundamental para a sétima arte, cuja importância é comparável a obras como
O Homem da Câmara De Filmar ou
O Nascimento De Uma Nação.
Leni Riefenstahl revolucionou o cinema com as suas inovadoras câmaras móveis, o uso de lentes especiais para distorcer perspectivas, imagens aéreas e uma abordagem vanguardista da fotografia e da música. Leni Riefenstahl filmou Hitler como este nunca tinha sido filmado, transformando-o numa figura quase transcendental (com a câmara colocada sempre em níveis inferiores, de forma a capta-lo de baixo para cima em poses heróicas), utilizando a arquitectura imperialista a favor dos ideais do império (uma arquitectura clássica e monumental), recorrendo à música clássica para exaltar os momentos exactos das situações exactas.
Encontramos em vários momentos do cinema contemporâneo influências deste
O Triunfo Da Vontade - quando vemos em
Apocalypse Now um batalhão de helicópteros carregar os inimigos ao som de
A Marcha Das Valquírias, estamos a ver a influência de
O Triunfo Da Vontade; quando vemos na série
A Guerra Das Estrelas os batalhões gigantescos de Darth Vader alinhados em imponentes imagens aéreas, estamos a ver a influência de
O Triunfo Da Vontade; e quando vemos os planos heróicos de Charles Foster Kane em
O Mundo A Seus Pés, estamos a ver a influência de
O Triunfo Da VontadeEntão se
O Triunfo Da Vontade é um documento tão fundamental do cinema, qual é o seu problema? O problema é o facto de ser um panfleto de propaganda nazi, que exalta um dos mais doentios regimes da nossa história recente. O Triunfo Da Vontade capta os discursos de Hitler e dos seus ministros, fazendo a apologia dos ideais nacionalistas. Não acredito que, nos dias de hoje, eles ainda consigam lavar o cérebro a alguém (sim, eu sou um optimista ingénuo), mas não deixa de ser assustador ver personagens que sabemos terem executado actos tão maléficos em poses e discursos tão nobres e empenhados.
O Triunfo Da Vontade é mais um daqueles objectos fílmicos que não consigo quantificar qualitivamente segundo o sistema de classificação deste humilde antro. Mas obviamente que é um documento obrigatório para todos os cinéfilos interessados, ávidos consumidores de história e estudiosos da arte de fazer bom cinema.
Posted by: dermot @
4:33 PM
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