Sexta-feira, Agosto 24, 2007
O COURAÇADO POTEMKIN:Título:
Bronenosets PotyomkinRealizador: Sergei Eisenstein
Ano: 1925

Diz a sabedoria popular, muito sabiamente, que a pena (leia-se caneta) é mais forte que a espada. Obviamente que é verdade, mas no século XX o progresso pariu algo ainda mais poderoso: o cinema. De facto, uma imagem vale mais do que mil palavras (outra vez a sabedoria popular) e, desde cedo, que os grandes líderes políticos se aproveitaram disso. António Ferro, o infame ministro da cultura de Salazar, disse um dia que "a sua magia, o seu poder de sedução, a sua força de penetração, são incalculáveis. Mais do que a leitura, mais do que a música, mais do que a linguagem radiofónica, a imagem penetra, insinua-se, quase sem dar por isso, na alma do homem(...) O espectador é um ser passivo, mais desarmado do que o leitor(...)".
Mussolini tinha a Cinecittá, uma verdadeira cidade do cinema, a trabalhar para si; Hitler tinha Leni Riefenstahl; Salazar tinha António Ferro a controlar um cinema à sua imagem ideológica; e a União Soviética comunista tinha Sergei Eisenstein.
Mas Eisenstein não foi apenas um resultado do comunismo; foi também um cineasta visionário e um dos mais vanguardistas realizadores da história da sétima arte, que redefiniu muitas das convenções de fazer cinema, especialmente na sala de montagens, onde foi um verdadeiro inovador. E a sua obra mais aclamada foi
O Couraçado Potemkin.
Vamos então por partes:
O Couraçado Potemkin é um dos mais propagandistas folhetos do regime comunista soviético, ou não tivesse sido Eisenstein peça activa na revolução contra o czarismo. O filme baseia-se então nuam tentativa de revolta revolucionária verídica de 1905, onde os marinheiros de um barco de guerra - o Potemkin - rebelaram-se contra a precaridade das suas condições, deflagrando uma revolta em terra. Eisenstein recria este capítulo da estória soviética elevando-a a níveis heróicos de grande monumentalidade, com banda-sonora triunfal a condizer, vincando os valores do comunismo e da utopia trabalhista que na altura ainda era tida como certa.
Anos mais tarde, Eisenstein iria abandonar o realismo soviético, abraçando cada vez mais um experimentalismo que não se enquadrava aos olhos do regime, que o acabou por ignorar. Mas
O Couraçado Potemkin, obra-prima dessa primeira fase de Eisenstein, respira propaganda por todos os poros. Não uma propaganda que limita a compreensão do espectador, mas como referiu o próprio realizador, uma "propaganda ligada à revolução que promovesse o diálogo crítico entre as pessoas".
O Couraçado Potemkin divide-se, formalmente, em cinco parte, na boa tradição teatral, ou não fosse Eisenstein um discípulo do teatro do povo. E se nas primeiras partes o filme se centra a bordo do couraçado e Einsenstein se ressente do espaço limitado, quando o filme passa para terra, o realizador ganha toda a liberdade para explanar as suas ideias. E é por isso, que o filme vale quase por inteiro pela mítica cena da escadaria de Odessa, cujas influências encontramos em inúmeros filmes posteriores, especialmente em
Os Intocáveis e na
hilariante abertura de
Aonde Pára A Polícia 33 1/3.
O Couraçado Potemkin é um filme que se ressente da passagem do tempo, um filme muito mais datado do que o dos seus colegas expressionistas da Alemanha, por exemplo. No entanto, não deixa de ser um documento fundamental, sobretudo para todos os estudantes de cinema e cinéfilos apaixonados. Um sério McBacon e viva la revolucion (final de prosa babaca, eu sei).
Posted by: dermot @
10:27 AM
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