Terça-feira, Agosto 14, 2007
ATRAVÉS DA NOITE:Título:
Sweet And LowdownRealizador: Woody Allen
Ano: 1999

O mockumentário rock (documentários fictícios sobre músicos e/ou bandas que não existem) é um género que me agrada particularmente e que costuma dar bons resultados. O caso mais flagrante é, obivamente, o de
This Is Spinal Tap, mas são vários os exemplos de bons mockumentários:
Tudo Por Um Sonho,
The Rutles, ou claro,
Através Da Noite.
Através Da Noite é um dos raros filmes de Woody Allen cuja personagem principal não é o próprio Woody Allen (apesar de ele também lá estar) ou a sua personalidade projectada noutro actor. Aqui, a personagem central é Emmet Ray (Sean Penn), um músico jazz que nada tem a ver com o boneco psicótico, hipocondríaco e obsessivo que estamos habituados nos filmes de Allen.
Emmet Ray foi então um grande músico jazz, o segundo maior guitarrista de sempre, só ultrapassado
por aquele cigano em França (Django Reinhardt, obviamente). Apesar do seu talento, Ray quase que não ficou inscrito nos anais da história por duas razões: primeiro, porque gravou pouquíssimo material em estúdio (não via necessidade em o fazer, até porque depois, e passo a citar,
viria um idiota qualquer roubar-lhe as ideias); e segundo, porque este nada tem a ver com o perfil que costumamos traçar aos génios: Ray era um escroque, um chulo em part-time, viciado em snooker, amante de comboios, adorava alvejar ratos nas lixeiras, era um boca de trapos e, sobretudo, um pelintra.
A lembrança que há de Emmet Ray são então meia dúzia de episódios mais ou menos surreais, mais ou menos exagerados (porque quem conta um conto, acrescenta sempre um ponto), todos saídos da habitual imaginação caótica e felliniana de Woody Allen.
Através Da Noite é um mockumentário com reconsituições, uma espécie de manta de retalhos, onde alguns entusiastas de jazz (o próprio Allen ou Ben Duncan, por exemplo), narram algumas histórias conhecidas do tal
segundo maior guitarristas de sempre. E apesar da aparente desconexidade,
Através Da Noite acaba por conseguir traçar (com algumas limitações, como é óbvio) um retrato do músico com cabeça, tronco e membros.
Uma das vantagens em Allen fazer um filme por ano, é que lhe dá a possibilidade de trabalhar com muitos actores. Allen já trabalhou com os melhores e em
Através Da Noite fê-lo com dois grandes nomes do firmamento internacional: Sean Penn, cuja habilidade para tocar guitarra é, curiosamente (e infelizmente), inversamente proporcional à sua habilidade para representar; e Uma Thurman. Também há Samantha Morton, que recebeu inclusive uma nomeação ao Oscar sem dizer uma única palavra, mas cujo trabalho se adequa na perfeição com a sua personagem: pateta.
Através Da Noite é um dos filmes de amor de Allen (um tributo ao
seu jazz, como
Balas Sobre A Broadway, por exemplo) e, por isso, um dos mais pessoais. É certo que lhe falta alguma da vitalidade e energia habituais nos melhores trabalhos do realizador, mas não deixa de ser um Allen ligeiro e agradável. Aliás, acho (ou melhor, quero achar) que Woody Allen nem sabe fazer nada abaixo do McBacon.
Posted by: dermot @
10:07 AM
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