Segunda-feira, Agosto 13, 2007
ALPHAVILLE:Título:
Alphaville, Une Ètrange Aventure De Lemmy CautionRealizador: Jean-Luc Godard
Ano: 1965

Ainda custa a acreditar que perdemos no mesmo dia os dois mestres Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni. O cinema fica mais pobre e agora, dos chamados
autores, só nos resta Godard e Oliveira. E como este último parece ir-nos atormentar por mais umas décadas valentes, apetece-me hoje relembrar o francês e um dos seus mais emblematicos filmes:
Alphaville.
Certa vez, li algures um texto do Bénard da Costa, em que ele dizia que
Solaris era o
2001: Odisseia No Espaço dos pobres. Por este fio de raciocínio, só me resta argumentar que
Alphaville é o
Blade Runner: Perigo Iminente dos pobres. E antes que me atulem a caixa de email com mensagens de ódio a dizer que
Alphaville foi feito 20 anos antes e coisas parecidas, deixam-me acrescentar que gostaria muito de saber a opinião do Bénard da Costa acerca do filme. Se alguém lhe puder transmitir isso, agradecia.
Alphaville é então uma distopia futurista em tons de film noir, onde Godard recicla Lemmy Caution, a personagem mitificada por Eddie Constantine em vários
pulp movies. No entanto, apesar de ser um filme de ficção-científica, não existem efeitos especiais ou cenários vanguardistas. Alphaville (a cidade) não é mais do que os edifícios modernistas de Paris à noite, com os seus renaults e os seus fords corriqueiros. É o que eu costumo chamar de "distopias realistas" e, normalmente, são as que resultam melhor (
Brazil - O Outro Lado Do Sonho é um excelente exemplo e um filme com grande influência).
Bem-vindos então à cidade de Alphaville, uma metrópole governada por um super-computador chamado Alpha 60 (olá Orwell), que manieta a sociedade com a sua lógica, impondo leis rígidas e métodos ordinários que proibem as reacções ilógicas e os instintos naturais, coisas como o choro, a raiva e o amor. Alphaville é então uma cidade monótona, onde tudo é chato e controlado: as ruas, a arquitectura, as mulheres (treinadas como gueishas sexuais, que apenas abrem a boca para agradar aos homens), o Alpha 60 e o próprio filme...
Oa primeiros vinte minutos são completamente alienados e deixam-nos totalmente à nora, sem um pingo de contextualização onde nos agarrarmos. No entanto, à medida que vamos colectando pistas sobre o que se passa e começamos a compreender o filme,
Alphaville começa-se a tornar gradualmente interessante. Existem momentos verdadeiramente fantásticos - como a cena da execução na piscina, onde todos os que têm comportamentos ilógicos (como chorar após a morte da esposa) são fuzilados -, mas a ligá-los estão alturas verdadeiramente bocejantes.
Godard segue, como de costume, o principal ensinamento que Bergman nos deixou -
faz cada filme como se fosse o teu último -, e presenteia-nos com mais uma colecção de planos memoráveis, travellings audaciosos e momentos artísticos de excepção. Além disso, faz ainda o habitual jogo de tributos às suas referências (Godard era o Tarantino dos anos 60, não se esqueçam), onde o mais divertido é a recriação das lutas teatrais dos film noirs.
Tenho uma relação paradoxal e muito extremada com
Alphaville. Por um lado acho-o aborrecido de morte em certas alturas, não suporto os primeiros quinze/vinte minutos e acho o Alpha 60 um vilão muito fraquinho (especialmente, quando comparado com o seu primo Big Brother); mas por outro, fico deliciado com o trabalho de câmara, venero aquela distopia matemática e racional e divirto-me bastante com o copy paste do francês. Assim, para não haver chatices, eis o meio-termo do Double Cheeseburger.
PS - fiquei ainda fascinado ao descobrir que a pirralha da Kelly Osborne andou a pilhar o filme.
Posted by: dermot @
4:57 PM
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