Quarta-feira, Julho 04, 2007
ROMA:Título:
RomaRealizador: Federico Fellini
Ano: 1972

Como bom realista italiano que era, Fellini usava regularmente a cidade como peça dramática central dos seus filmes. No entanto, ao contrário de outros realistas, como Visconti, Fellini nunca se interessou muito pelo retrato político, preferindo antes uma fotografia socio-cultural. Até porque como disse Wim Wenders, ninguém recorda um país pela sua economia, mas sim pela sua cultura.
Em 1972, Fellini realizou um tributo à sua cidade favorita: Roma, a Cidade Eterna, capital de Itália e berço do império italiano. Os moldes usados foram os mesmos que Woody Allen, o seu mais fiél discípulo, utilizou anos mais tarde no igualmente tributário
Manhattan: uma homenagem a Roma, não pelo formato postal de férias (ou seja, através do desfile das atracções turísticas habituais), mas antes através de uma radiografia social da cidade.
Roma é assim uma declaração de amor à Cidade Eterna pelos olhos de um dos seus mais ilustres filhos. E perto do final, um dos convidados especiais do filme - o escritor norte-americano Gore Vidal -, resume em sucintas palavras o porquê daquele fascínio: porque Roma é uma cidade que reúne o poder político, a religião e o cinema, uma cidade de gente natural e uma cidade com tanta história e que sempre soube se renovar.
Fellini antevê em
Roma a estilização pós-moderna e a construção formal (e fragmentada) de
Amarcord. No entanto, delinea-o de forma cronológica mais evidente. Assim,
Roma divide-se em três partes: a infância, que retrata Roma nos anos 30/40, uma cidade extremamente devota a Deus; a adolescência, com a Segunda Guerra Mundial prestes a rebentar, numa sociedade fascista, controlada pela ditadura de Mussolini; e a maturidade (leia-se o presente), em plenos anos 70, no final do flower power, numa Roma prestes a abraçar o modernismo contemporâneo.
Fellini utiliza como âncora e factor comum a estes três segmentos históricos alguns elementos sociais comuns, como o futebol ou a prostituição. Além disso, recorre ainda a alguns signos urbanos que hoje em dia já se tornaram meros clichets cinematográficos: o trânsito e o automóvel como símbolo do progresso, ou as multidões como metáfora ao alheamento da metrópole.
Claro que depois, aliado a tudo isto, ainda há o típico Fellini, como o recurso recorrente ao narrador. Além disso, se você não está familiarizado com a ironia, Fellini é daqueles que é capaz de lhe dar um curso intensivo num par de horas. E em
Roma, a religião e a política são, mais uma vez, os seus principais alvos (o desfile de moda dos trajes do Vaticano é a coisa mais genial que vi nos últimos tempos). E claro, existe uma parafernália de situações surreiais e bizarras, típicas da obra do realizador italiano e aquela atmosfera convencionalmente apelidada de felliniana, em que toda a gente fala muito alto e muito depressa, tudo de forma muito caótica.
Roma é como aquele nosso amigo trapalhão e destrambolhado, que nós estamos sempre à espera que deite a mobília toda abaixo.
Roma costuma ser um dos filmes de Fellini mais apontado pelos seus detractores. Mas pra mim - chamem-me o que quiserem -,
Roma é mais inspirado que o seu sucessor,
Amarcord. Uma inspiração do tamanho de um McRoyal Deluxe.
Posted by: dermot @
9:39 PM
|