Quinta-feira, Julho 19, 2007
À PROVA DE MORTE:Título:
Death ProofRealizador: Quentin Tarantino
Ano: 2007

2007 é um Ano Tarantino. Ou seja, é um ano de extrema felicidade, porque temos a possibilidade de ver mais um novo filme do mestre Quentin Tarantino. Tarantino é o maior cineasta da última década e meia, o Godard dos anos 90, um homem capaz de transformar a maior xunguice em cultura pop. Como já perceberam, Tarantino é um autor muito venerado por estes lados e eu até sou um gajo contra essa coisa de verdades absoutas e analíticas na arte. E hoje é um dia muito feliz, porque chega às salas nacionais
À Prova De Morte, o seu mais recente trabalho.
Podia falar aqui do quão estúpido é o facto de dois americanos fazerem um filme duplo e nós, europeus, só recebermos um deles. Mas como toda a gente já sabe a estória (infeliz) de
Grindhouse, vou-me esquivar a esses pormenores e vou saltar ao que realmente interessa:
À Prova De Morte, a metade de Tarantino de
Grindhouse.
Em todos os seus filmes, Tarantino homenageia géneros cinematográficos bem diferentes: os heist movies em
Cães Danados, o cinema noir em
Pulp Fiction, a blaxploitation em
Jackie Brown e os western spaghettis e o cinema de artes-marciais de Hong Kong em
Kill Bill 1 e
2. Agora, em
À Prova De Morte, Tarantino decidiu prestar tributo aos exploitation movies da década de 70 - filmes gratuitos que sacrificam as tradicionais noções do cinema artístico em detrimento de um sensacionalismo atroz sobre determinados temas, principalmente os mais chocantes: sexo, violência e/ou gore.
Contudo, esta não é só uma homenagem formal e estilística; Tarantino decidiu recriar na totalidade a experiência que era assistir a uma dessas sessões nos anos 70, nas chamadas
grind houses, salas onde se ia dançar o grind: ou seja, assistir a filmes completamente riscados pelo uso abusivo, falhas por parte do projeccionista que devia estar a dormir a maior parte do tempo e partes da fita danificada. E tudo isto está em
À Prova De Morte, que mantém ainda aquele aspecto sujo das fitas de terror dos anos 70 (lembram-se de
The Last House On The Left?).
Formalmente falando,
À Prova De Morte é um tributo de Tarantino a dois subgrupos da exploitation muito específicos: os filmes de carros, de
Corrida Contra O Destino (com o mesmo Dodge Challenger de 1970 branco) e
Bullit, e os filmes femininos do girl power, de
Faster Pussycat! Kill! Kill! a... todos os outros filmes de Russ Meyer. Aliás, Meyer é mesmo uma das grandes influências neste aspecto, não só na caracterização do herói colectivo feminino, mas especialmente na forma como Tarantino filma de forma gratuita e recorrente o rabo de Vanessa Ferlito. E atenção: apesar de ser um exploitation movie sobre mulheres, tal como em Russ Meyer não aparecem umas únicas mamas sequer.
Tarantino dá depois o seu toque pessoal e original à coisa. Depois de uma primeira metade de filme onde redefine as regras do slasher movies, dando uma nova definição aos carros assassinos (esqueçam tudo o que viram em
Um Assassino Pelas Costas e
O Carro Assassino), Tarantino inova ao inverter os papéis do filme, transformando contra todas as previsões o predador em presa e vice-versa, fazendo de
À Prova De Morte o maior panfleto de emancipação feminina dos últimos vinte/trinta anos.
E depois,
À Prova De Morte é um mimo aos olhos e aos ouvidos, como todos os filmes do mestre: há uma banda-sonora brutal, com garage-surf-psych-rock refundido e obscuro; há (muitas) mulheres bonitas e talentosas; há os diálogos característicos, mais escorreitos e menos teóricos que os de
Pulp Fiction; há o Big Kahuna Burger e o tabaco Red Apple; e há Kurt Russel (vénias elevadas ao infinito), o único homem vivo que deu um pontapé a Elvis Presley num filme, o mítico Snake Plissken e o lendário Jack Burton. Bem vindo de volta, Kurt!
O único problema do filme, que mesmo assim é tão insignificante que quase é vergonhoso apelida-lo de problema, é o facto de que na segunda parte perder muito estilo: a fita deixa de estar riscada, não há saltos na imagem, partes danificadas e o projeccionista passa a estar atento mais vezes. Mas percebe-se a situação: esta segunda metade tem muito mais substância que a primeira.
À Prova De Morte é o Royale With Cheese do ano. Já podem parar com as estreias em 2007, se faz favor.
Posted by: dermot @
11:25 AM
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