Sexta-feira, Julho 20, 2007
O GABINETE DO DR. CALIGARI:Título:
Das Cabinet Des Dr. CaligariRealizador. Robert Wiene
Ano: 1920

O expressionismo alemão é uma das mais fascinantes correntes artísticas da era moderna, muito devido às condicionantes que levaram ao seu surgimento. O expressionismo alemão foi uma cultura de crise, nascida numa Alemanha recém-unificada, acabada de sair de uma guerra mundial e mergulhada em radicais e profundas reformas sociais, políticas e intelectuais. Era uma Alemanha desamparada e marcada pelo medo; rompera-se com a religião e Deus já não era incontestável: o Homem era agora o responsável pelo seu destino e aumentou-se o mistério pela vida e pela morte (por isso, quando o protagonista de
O Gabinete Do Dr. Caligari tem a possibilidade de colocar uma questão ao
adivinho, a primeira coisa que pergunta é quando é que vai morrer). Estas incertezas resultaram na angústia, no medo, na solidão e em outros sentimentos sombrios - o expressionismo alemão.
O Gabinete Do Dr. Caligari pode não ser o primeiro exemplo do expressionismo alemão no cinema, mas é aquele que melhor encarnou as premissas do mesmo. Além disso, é um marco incontornável na história do cinema: é o primeiro thriller de horror e o pioneiro na área do suspense.
A estória é simples e, hoje em dia, até parece batida. Mas na altura, causou sensação: Francis (Friedrich Feher) é um indivíduo internado num hospício que, por intermédio de um flashback, vai contar a misteriosa história do assustador Dr. Caligari, um médico obcecado que manipulava um sonâmbulo - o mítico Cesare (Conrad Veidt) - para matar pessoas. Em
O Gabinete Do Dr. Caligari mergulhamos na mente de Francis e, simultaneamente, num universo de paranóia e caos.
De forma a representar esse mundo de loucura, foram criados surreais cenários onde foram abolidas as habituais linhas horizontais e verticais. Em
O Gabinete Do Dr. Caligari as linhas diagonais e a perspectiva desproporcional provocam um desequilíbrio incómodo, de edifícios distorcidos, quartos claustrofóbicos e caminhos sinuosos.
O Gabinete Do Dr. Caligari é uma espécie de caos controlado, uma vez que toda a composição é estudada e cuidada. As únicas excepções são o plano de abertura e o de fecho, cenas que se passam fora da história de Francis, em pleno jardim do manicómio. Este tipo muito peculiar de arquitectura surreal viria a ser reutilizada vezes sem conta nas décadas seguintes, desde os giallos de Dario Argento até aos ambientes góticos de Tim Burton.
Com grande carga teatral,
O Gabinete Do Dr. Caligari define ainda algumas regras do cinema de terror e suspense, principalmente na manipulação das sombras e das silhuetas sugestivas, que viríamos repetidas no próprio expressionismo alemão (alguém mencionou
Nosferatu, O Vampiro?), ou mais tarde por mestres como Alfred Hitchcock.
Sempre que vejo
O Gabinete Do Dr. Caligari a única palavra que me vem à cabeça é obra-prima, mas no entanto não consigo dar-lhe outra coisa que o Le Big Mac devido aos buracos no argumento que surgem perto do final. Faz falta um director's cut em dvd para o realizador explicar o que se passa naquele final.
Posted by: dermot @
11:39 PM
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