Segunda-feira, Julho 09, 2007
THE MILLION DOLLAR HOTEL - O HOTEL:Título:
The Million Dollar HotelRealizador: Wim Wenders
Ano: 2000

Se existe uma personalidade famosa que me irrita verdadeiramente ela é Bono Vox. Toda aquela atitude de tipo bonzinho que quer um mundo cheio de paz, que as criancinhas não morram à fome, que todos sejam felizes e vivam em prados verdejantes com flores coloridas, que tomem muitas gomas ao pequeno-almoço, rebuçados ao almoço e chupa-chupas cor-de-rosa ao jantar e que depois se deitem em camas de flores, causa-me urticária. Principalmente, quando depois os U2 vão em digressão mundial e o mesmo Bono diz
querem vir ver-me? Então cada bilhete custa 60 euros, que eu preciso comprar outro jacto particular. Deviam inventar uma palavra para isto. Ah, esperem, estão aqui a dizer-me que já inventaram. Chama-se hipocrisia.
Então mas se o homem o irrita tanto, porque raio está a falar dele, estará a pensar o fiél leitor. Porque segundo consta,
The Million Dollar Hotel - O Hotel nasceu de uma estória criada pelo próprio Bono, depois de ter ficado alojado nesse tal hotel durante as filnagens do teledisco de
Where The Streets Have No Name.
Wim Wenders é um dos grandes mestres do cinema contemporâneo e o segundo (ou terceiro) melhor realizador alemão vivo, mas tem sido um pouco ignorado por este vosso humilde escriba. Mas circunstâncias profissionais têm-me obrigado a (re)ver a sua filmografia e isso tem sido quase uma epifania para mim. Vou começar seguindo o adágio popular que diz que o melhor fica sempre para o fim e vou falar-vos deste
The Million Dollar Hotel - O Hotel.
Wenders é o realizador das cidades e é, quiçá, o cineasta mais arquitectónico desde Jacques Tati. Os seus filmes demonstram sempre uma grande cumplicidade com o tecido urbano e
The Million Dollar Hotel - O Hotel não é excepção. Aqui, há um ensaio sobre o alheamento e o isolamento cada vez maior do subúrbio em detrimento do centro urbano das metrópoles, que se reflecte numa ocupação desiquilbrada e pouco dinâmica da cidade. O Y da passada sexta-feira fazia capa com um fantástico artigo sobre o abandono que se verifica hoje em dia em Lisboa. Os senhores que se estão a candidatar actualmente à Câmara bem podiam pôr olhos em ambos...
O Million Dollar Hotel é então o último bastião da cidade orgânica, livre e pessoal, nos subúrbios de Los Angeles, cidade cada vez mais engolida pelos arranha-céus que dominam o skyline. Neste hotel vivem um sem número de inadaptados e párias da sociedade: loucos, artistas e gente diferente. Os convencionalmente chamados
freaks. É como se fosse um prédio cheio de
Benny & Joons. Contudo, quando o seu mais ilustre habitante é atirado de cima do telhado - Izzy Goldkiss (Tim Roth), o filho de um famoso magnata -, um duro agente especial (Mel Gibson) vai chegar para descobrir o assassino.
Wim Wenders não é um actor convencional que goste de seguir a cartilha cinematográfica; ele cria o seu próprio estilo e tem uma maneira muito original de ver as histórias. É por isso que o tradicional esqueleto de um whodunnit clássico - que relembra
O Crepúsculo Dos Deuses, uma vez que começa pelo fim e recua num enorme flashback - é transfigurado numa subversiva história de amor, entre o louco Tom Tom (deliciosa personagem de Jeremy Davies) e a solitária Eloise (Milla Jovovich a fazer os mesmos estragos que uma marreta, principalmente quando tem que mostrar emoções). Por isso, o próprio narrador apenas serve para pulvilhar o filme com uma certa nostalgia glamourosa do cinema noir. É uma espécie de romântiscmo degradante...
Com a chegada daquele pouco ortodoxo detective ao hotel, o edifício vai ser invadido pela polícia, imprensa e curiosos, acabando os seus habitantes (um leque fantástico de personagens irreais, que conta com Peter Stormare ou Bud Cort) por tombarem corrompidos pelos malefícios da sociedade actual, coisas que nos habituamos a condenar como a globalização, o capitalismo, o alheamento ou a impessoalidade.
Wim Wenders filma como ninguém - o seu cinema de autor é único e claramente identificável - e
The Million Dollar Hotel - O Hotel mantém as amarras que a sua obra costuma ter junto a conceitos como romântico e nostálgico. No entanto, o filme já começa a mostrar os sinais de cansaço que o realizador alemão vem mostrando desde, quiçá,
Viagem A Lisboa, e que o tem levado a aproximar-se cada vez mais de terrenos de esquecimento e de irrelevância. Não queria ser fatalista e chamar-lhe o princípio do fim, mas este McBacon é quase o início de uma fase menos brilhante do que gostaríamos.
Posted by: dermot @
2:00 PM
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