Segunda-feira, Julho 23, 2007
HOLLYWOOD ENDING:Título:
Hollywood EndingRealizador: Woody Allen
Ano: 2002

Certa vez, quando questionado se se influenciava muito nos filmes de Fellini, Woody Allen respondeu aborrecido que não, que os pilhava descaradamente. De facto, é notória a influência do cinema do italiano no estilo de Allen, assim como um certo paralelismo entre algumas obras, como
Roma e
Manhattan. No entanto, nenhumas são tão evidentes quanto
8 1/2 e
Hollywood Ending.
Assim, tal como a obra-prima
8 1/2,
Hollywood Ending centra-se também num conceituado realizador de cinema que já viu melhores dias: Val (Woody Allen a fazer do habitual Woody Allen), um realizador neurótico, hipocondríaco e maníaco-depressivo. Depois de dois Oscares, Val vai ter a sua última chance de voltar à ribalta: a sua ex-mulher Ellie (Téa Leoni) e o produtor Hal Yager (Treat Williams) vão convida-lo para realizar "A Cidade Que Nunca Dorme", um noir nova-iorquino de gangsters, clubes de jazz e femmes fatales.
Hollywood Ending é um filme sobre um filme, um documento auto-biográfico, uma metáfora ao acto criativo e uma crítica declarada à indústrica cinematográfica e aos seus malefícios. E é neste último ponto que o filme se destaca, numa alegoria surreal, divertida e ácida, que termina com a mais improvável punchline de todas:
Ainda bem que existe França, como se fosse uma chapada de luva branca na crítica norte-americana, tão habituada a despreza-lo quando este continua a ser visto como um génio do outro lado do Atlântico.
Allen importa ainda de
8 1/2 o caos controlado dos ambientes fellinianos, enchendo o plateau do seu filme com propostas desmedidas: um cameraman chinês que só fala mandarim ou uma réplica em tamanho real dos primeiros vinte andares do Empire State Building (onde é que já vi isto?). Tudo isto misturado com os habituais diálogos escorreitos (neste caso particularmente inspirados) e o jazz orquestral da banda-sonora.
Mas
Hollywood Ending ainda dá uma reviravolta sobre si mesmo, quando a meio da trama o realizador nos prega com um twist: Val fica cego e vai ter que realizar o filme sem que ninguém descubra que ele não consegue ver. No entanto, contra todas as expectativas, a partir daqui o filme transforma-se num declarado filme de amor e uma homenagem a Nova Iorque e até ao cinema noir. Só que peca por não ser mais assumido, como a narradora que parece andar sempre demasiado envergonhada para aparecer mais vezes.
Hollywood Ending é um dos filmes de Allen mais subvalorizados, talvez porque surgiu entalado por umas obras menores. A mim não me engana: um McRoyal Deluxe.
Posted by: dermot @
1:09 PM
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