Terça-feira, Julho 31, 2007
Costuma-se dizer de forma quase unânime que as duas primeiras adaptações do Batman ao grande ecrã são as melhores adaptações de sempre de um herói da banda-desenhada ao cinema. Todos sabemos que não é bem assim, mas de tanto repetirmos a lenga-lenga a mentira já se tornou verdade. E além disso, esta é daquelas coisas que até devia ser verdade...
Por isso, tendo isto em conta (ou não), decidi fazer o chamado
post shampoo e amaciador; que é como quem diz, o post dois em um.
BATMAN:Título:
BatmanRealizador: Tim Burton
Ano: 1989

É sabido que o tempo é bom conselheiro para as reflexões. Por isso, a uma cómoda distância de quase vinte anos, podemos sentar-nos e analisar calmamente a escolha de Tim Burton para dar vida à primeira grande adaptação de Batman ao grande ecrã. É que se virmos bem, até faz sentido: o Homem-Morcego é ele próprio uma daquelas personagens que Burton tanto gosta de filmar - inadaptados que vivem à margem da sociedade convencionalmente apelidada de "normal".
A principal conquista de Burton em
Batman é a atmosfera que consegue criar, ao fundar a sua própria Gotham City. E que melhor forma havia para representar uma metrópole que se confunde com as palavras
crime e
corrupção do que importar o expressionismo alemão de
O Gabinete Do Dr. Caligari e
Metrópolis, por exemplo, e converte-lo ao modernismo tardio dos anos 80? Gotham City é então uma espécie de Sodoma e Gomorra gótica dos tempos modernos, criada pelo habilidoso lápis de Anton Furst, que confessou ter fundindo vários estilos arquitectónicos distintos para criar a mais feia cidade de todas.
É então nesta cidade de ruas apertadas e sinuosas, edifícios esguios que roçam os céus e mergulhada nas sombras da poluição e do degredo, com resquícios do cinema noir (gangsters de gabardine e chapéu e detectives mergulhados no fumo constante dos charutos, ou não fosse ele um descendente directo do expressionismo alemão), que vai surgir um vigilante noturno: Batman, o alter-ego do milionário Bruce Wayne (Michael Keaton), que vai tentar erradicar o mal das ruas da sua cidade.
Para esta estreia no cinema, Tim Burton escolheu como primeiro némesis o mítico Joker (Jack Nicholson), um vilão metade anarquitsa metade palhaço, que vai introduzir cor no cinema noir a preto e branco de
Batman. E onde está escrito cor, deve-se ler também humor; humor burlesco, que vai dar ao filme um tom surreal e divertido e uma personalidade muito própria. Ou Joker não fosse simultaneamente vilão e comic relief.
Uma das coisas que gosto nesta adaptação inicial de Batman é o seu realismo. Apesar de ser um filme sobre um homem que se move sob os prédios, com engenhocas imaginativas, não existe aquela explosão de fogo-de-artifício e coreografias arriscadas que nos habituamos nos filmes de heróis.
Batman é um herói sem poderes especiais, que combate tipos vulgares armados com facas e pistolas, cujo maior crime é o que fazem à moda.
Mas se há coisas que gosto em
Batman, também há outras que desgosto. E a principal é o casting. Começando logo por Michael Keaton, que funciona como Batman, mas não como Bruce Wayne. Também é verdade que não gostar dele ajuda... Depois vem Jack Nicholson, actor genial, mas demasiado velho para o papél. É certo que foi uma escolha pessoal do seu criador e cria um boneco bastante interessante, mas Jim Carrey é muito mais credível como um semelhante Enigma, uns filmes à frente. Por isso, o único dos protagonistas que realmente está como peixe na água é a femme fatale Kim Basinger, que irradia charme por todo o filme.
Batman é uma estreia condigna do Cavaleiro das Trevas no cinema, uma espécie de McBacon bem condimentado. Mal sabia ele que o lobby gay o haveria de derrotar anos mais tarde.
BATMAN REGRESSA:Título:
Batman ReturnsRealizador: Tim Burton
Ano: 1992

Depois do sucesso de bilheteiras que foi
Batman e das opiniões positivas tanto da crítica, como dos fãs do Cavaleiro das Trevas, Tim Burton recebeu carta branca para filmar a sequela
Batman Returns, três anos depois. E com essa carta branca vieram mais uns milhões extras e liberdade criativa total.
Mas Burton não precisava de inovar muito, uma vez que já o tinha feito em
Batman. Assim, aproveitou o dinheiro extra para aumentar Gotham City, a sua principal conquista no filme anterior, construindo cenários ainda mais grandiosos e, simultaneamente, obscuros. Gotham City mantém-se assim a cidade gótica do crime e da corrupção que Burton havia importado directamente do expressionismo alemão.
No que diz respeito ao expressionismo alemão, Tim Burton vai desta vez buscar referências directamente a
Nosferatu, O Vampiro: a primeira vez que vimos o Pinguim é através da sua sombra recortada numa parede, movimentando-se furtivamente nas sombras (algo que acontece mais tarde com a Catwoman); e a própria personagem de Cristopher Walken chama-se Max Schreck, o nome do protagonista de
Nosferatu, O Vampiro.
A grande evolução de
Batman Returns para com o seu antecessor passa então pelo desenvolvimento das personagens, começando logo pelo próprio casting: Michael Keating mantém-se como Bruce Wayne/Batman e até ganha mais personalidade; Danny DeVito encarna um asqueroso e magistralmente maquilhado Pinguim; Cristopher Walken é o malvado magnata Max Schreck; e Michelle Pfeiffer é a sensual e esguia Catwoman, colocando a um canto aquela vadia da Halle Berry.
Batman Returns é um filme mais negro e bizarro que o anterior. Mais negro, porque este Batman é uma personagem mais afectada psicologicamente por ser um herói solitário (aliás, tanto o Batman, como o Pinguim e a Catwoman são bastante semelhantes, só que o primeiro esoclheu servir o Bem e os segundos optaram pelo Mal); e mais bizarro, porque Burton mistura o arsenal burlesco do Joker com pinguins e uma trupe saída do circo (para não falar da banda-sonora fabulástica (fabulástica de fábula) de Danny Elfman). Há também quem diga que esconde uma mensagem subliminar de sado-masoquismo, mas eu desconfio que isso são as fantasias reprimidas de muita gente ao ver Michelle Pfeiffer vestida de cabedal a manusear um chicote.
Batman Returns vacila em certas partes do argumento, algures entre o inofensivo e o inóquo, mas nada que afecte o seu estatuto de
melhor adaptação cinematográfica do Homem-Morcego. Um Le Big Mac, que não conta, obviamente, com a excepção
Batman: Dead End.
Posted by: dermot @
12:11 AM
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