Sexta-feira, Julho 20, 2007
AS ASAS DO DESEJO:Título:
Der Himmel Über BerlinRealizador: Wim Wenders
Ano: 1987

É verdade que foi através do cinema que tive a minha primeira leitura da multiplicidade de várias cidades e das suas formas - a Roma dos neo-realistas italianos, a Hong Kong dos filmes de artes-marciais, as Caraíbas das matinés dos piratas de Errol Flynn, ou a Chicado dos filmes de gangsters -, mas para mim, Berlim sempre foi a de Kurt Weill. Só quando vi
As Asas Do Desejo é que passei a ter uma visão mais contemporânea da capital alemã (mas que afinal já conhecia e não sabia, dos discos do Lou Reed e do David Bowie, por exemplo).
Antes de Nicolas Cage ser um anjo sobre Los Angeles -
A Cidade Dos Anjos é uma espécie de remake dos pobrezinhos de
As Asas Do Desejo -, Wim Wenders filmou a sua Berlim natal do céu, como a verdadeira cidade dos anjos, talvez inspirado pelo olho omnipresente de
Berlim: Uma Sinfonia Para Uma Grande Cidade.
Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander) são dois de muitos anjos que observam os habitantes de Berlim, não como anjos da guarda, mas como simples testemunhas dos seus actos mais puros e espirituais, um pouco como o reflexo da solidão de Deus, que tudo criou, mas que em nada pode intervir. Wenders apresenta-nos Berlim e a vida sob o olhar espiritual daqueles seres, a preto e branco, como se a percepção da vida fosse tão simples quanto o preto o é do branco.
Mas não é; a vida é feita de emoções, estados de espírito e sensações. E quando Damiel se apaixona pela trapezista Marion (Solveig Dommartin), a decisão de se tornar humano sobrepõe-se a todas as outras. E Wim Wenders coloca o filme a cores e nós, espectadores, acabamos por ter uma epifania, como se antes fossemos cegos e agora pudessemos ver. A alegria da cor da cidade, o barulho da modorra da multidão, o caos do trânsito... Tudo aquilo surge-nos como uma revelação. E o amor entre Damiel e Marion torna-se romântico e poético.
Uma das grandes conquistas de Wenders é a fotografia que tira a Berlim, ou não fosse ele o realizador das cidades. Tal como a
Manhattan de Woody Allen ou a
Roma de Fellini, a Berlim de Wenders não é aquela que conhecemos dos panfletos turísticos; é antes a cidade dos seus habitantes, uma capital dividida por um muro, com um passado marcante ainda demasiado presente, que muitos querem esquecer, mas cujas cicatrizes ainda são demasiado recentes. Wenders mostra-nos a Berlim divida, a Berlim destruída e a Berlim a ser reconstruída. E os simbolismos mantêm-se presente, como o circo como último bastião dos sonhos perdidos.
Wim Wenders redefine ainda o uso do preto e branco no cinema contemporâneo. O seu preto e branco é nostálgico como o do cinema clássico, mas os tons de sépia conferem-lhe uma espécie de patine muito especial, como um sinal dos tempos.
As Asas Do Desejo é um filme poético e uma experiência sensorial. E é também o mais fiél cartão de visita de Berlim. Como é que será que se diz McRoyal Deluxe em alemão?
Posted by: dermot @
1:23 PM
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