Sábado, Junho 16, 2007
ORIGINAL VS. REMAKEEm 1997, depois de ter ido ao cinema ver um desconhecido filme espanhol, Tom Cruise foi para casa a correr comprar os direitos do filme. Era
De Olhos Abertos, que quatro anos depois deu origem ao remake
Vanilla Sky. Para o efeito, James Cameron contou não só com Tom Cruise, mas com a própria Penélope Cruz, que interpreta o mesmo papel em ambos os filmes.
Existe uma aura de culto em redor dos dois filme. E assim como quem desdenha o original, há quem desdenhe o remake. Afinal quem tem razão? Porque teimam os americanos em refazer os filmes feitos do outro lado do Atlântico? Porque é que o público europeu prefere os originais aos remakes? O Royale With Cheese responde.
DE OLHOS ABERTOS:Título:
Abre Los OjosRealizador: Alejandro Amenábar
Ano: 1997

Quando ainda era um realizador praticamente desconhecido, o espanhol Alejandro Amenábar juntou dois promissores actores - Eduardo Noriega e Penélope Cruz - e realizou
De Olhos Abertos, uma história inspirada nas alucinações que teve durante uma febre alta. O filme foi o pontapé de saída para a internacionalização dos três, cujo currículo actual fala por si.
César (Eduardo Noriega) é um jovem playboy mimado e rico, que nunca teve que suar para ganhar a vida. Além disso, é bonito e bem-parecido, o que o faz ter uma rapariga jeitosa diferente todas as semanas na sua cama. Em suma, é o oposto do seu melhor amigo, Pelayo (Fele Martínez). E é precisamente este último que lhe apresenta a bela Sofía (Penélope Cruz), por quem ambos se vão enamorar.
César rouba a namorada a Pelayo. Mas como Deus castiga estas coisas, uma ex-namorada vai desfigurá-lo ao ponto de fazer
O Fantasma Da Ópera parecer um super-modelo. E como César é superficial e fútil, perder o seu bom aspecto vai arrasá-lo psicologicamente, everdando numa estória de alucinações, em que nem sempre sabemos o que é real e irreal.
De Olhos Abertos é um mind-blowing flick, que derrete o cérebro à medida que tentamos pôr as peças do puzzle no sítio correcto, para no fim colocar tudo em pratos limpos com o twist revelador.
De Olhos Abertos é uma espécie de
O Fantasma Da Ópera meets
Os Olhos Sem Rosto, que desenvolve o tema do amor vs aspecto exterior/interior do primeiro e o tema da perca de identidade consequente à perca da própria face do segundo.
Thriller psicológico intenso e escuro, com uma desenvolvimento narrativo nem sempre linear,
De Olhos Abertos ainda faz uso de diálogos escorreitos e naturais, que o tornam num peculiar filme de personagens, algo cada vez mais raro no actual cinema europeu. É um dos mais fascinantes títulos da filmografia de Alejandro Amenábar e, quiçá, o mais caro McRoyal Deluxe.
VANILLA SKY:Título:
Vanilla SkyRealizador: Cameron Crowe
Ano: 2001

Consta que Tom Cruise ficou tão impressionado quando viu
De Olhos Abertos que, no mesmo dia, comprou os direitos de autor do filme. Mas, aparentemente, não foi só o argumento que o fascinou. Também Penélope Cruz, a actriz principal, o tinha deixado impressionado (tanto, que anos depois, acabariam mesmo por se envolverem emocionalmente). Por isso, quando em 2001, Cruise pediu a Cameron para realizar um remake de
De Olhos Abertos, a actriz espanhola foi convidada para repetir o papel.
Os americanos têm um misterioso fascínio em refazer filmes estrangeiros. Não sei se é a ideia de não suportarem a ideia de que há gente lá fora a fazer melhores filmes que eles, ou se é, simplesmente, pelo facto de o americano comum não ser capaz de acompanhar um filme legendado. O que é certo é que os remakes norte-americanos sempre foram uma realidade, desde
Os Sete Magníficos até a
O Aviso.
Gosto de Cameron Crowe. É, provavelmente, o maior realizador pop de sempre. E o que quer isto dizer? Que é uma espécie de Andy Warhol da sétima arte actual, que gosta de incorporar elemento da cultura popular contemporânea nos seus filmes. E
Vanilla Sky não foge à regra, até porque a volta que dá à estória original torna isso propício.
É inevitável fazer a comparação entre
De Olhos Abertos e
Vanilla Sky. E esta começa logo na abordagem à estória. Enquanto que no original o protagonista era um playboy mimado e fútil, em
Vanilla Sky, David Aames (Tom Cruise) é igualmente playboy, mas com uma atitude rebelde. Claro que se deve evitar sempre que Tom Cruise encarne uma personagem desagradável, não é?
Outro dos problemas de
Vanilla Sky é a tendência dos norte-americanos simplificarem tudo. Se por um lado, torna-se mais fácil o acompanhamento da narrativa, por outro perde-se o poder da sugestão, em diálogos demasiado reveladores, e na intensidade do filme, muito mais
light que
De Olhos Abertos. Penélope Cruz parece ter ficado aborrecida com isto, porque passa metade do filme em piloto automático...
Mas quando começa a tornar-se no mind-blowing flick que na realidade é,
Vanilla Sky consegue reinventar-se e trasnformar-se num filme novo, em vez da coleção de planos e diálogos pilhados a
De Olhos Abertos. Para a posterioridade ficam dois momentos bem superiores ao filme original: o acidente de carro que desfigura Tom Cruise, numa sequência bem mais credível; e o final, visualmente mais interessante, no topo do Empire State Building.
Se tivermos em conta que é um filme novo e original,
Vanilla Sky é, também, um McRoyal Deluxe. Contudo, enquanto remake,
Vanilla Sky é apenas um fraquinho McChicken.
Posted by: dermot @
10:09 AM
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