Sexta-feira, Junho 08, 2007
23. FESTRÓIA
Dia 7Dia 7 de Junho, dia do Corpo de Deus. Tinha que ser um dia santo para surgir o grande favorito à vitória final do Golfinho de Ouro. Ainda faltam ser exibidos dois filmes, mas eu não ignoraria este sinal divino...
Cinema Português do Ano - VIÚVA RICA SOLTEIRA NÃO FICA:Título:
Viúva Rica Solteira Não FicaRealizador: José Fonseca e Costa
Ano: 2006

O cinema português não anda bem de saúde e nos últimos tempos as produções não têm sido as mais felizes. A culpa é, a maior parte das vezes, de um sistema castrador de atribuição de subsídios, que quase se limita às adaptações litarárias e aos filmes históricos - o que eles chamam de
interesse cultural, seja isto o que for. N
Viúva Rica Solteira Não Fica parecia ser à partida mais um filho deste sistema. No entanto, não nos podíamos esquecer que por detrás das câmaras estava o autor do lendário
Kilas, O Mau Da Fita: José Fonseca e Costa.
Um dístico na abertura do filme descreve-o como
uma tragédia à portuguesa, quase uma comédia. De facto,
Viúva Rica Solteira Não Fica obedece à estrutura da tragédia grega - prólogo, três actos e epílogo - e segue a tradição do bom humor português, aquele que atingiu o seu auge nos anos 50, quando António Ferro o descreveu como
o cancro do cinema português.
Filme de época,
Viúva Rica Solteira Não Fica é uma crónica de costumes próxima da obra de Eça de Queirós. Aliás, as influências são óbvias - o sentido crítico e irónico -, começando logo pelo contexto socio-político: D. Ana Catarina de Silgueiros (Bianca Byington) é a cobiçada filha de um rico homem do Norte, acabada de chegar do Brasil, em plena guerra com os ingleses. E à sua volta, vão gravitar um ambicioso número de personagens: o abade bonacheirão (José Raposo), um capitão inglês (Anton Skrzypiciel), a ama (Cucha Carvalheiro) e vários pretendentes à sua mão (Rogério Samora, Ricardo Pereira e Diogo Dória).
Viúva Rica Solteira Não Fica arranca com uma dupla tragédia: poucos meses depois do casamento, D. Ana Catarina fica viúva, no mesmo dia em que lhe morre também o pai. De um momento para o outro, fica
tão jovem e tão solteira, para além de muito rica. E nos anos seguintes, por amor ou apenas por interesse, D. Ana Catarina vai casar várias vezes, indo a fatalidade bater-lhe constantemente à porta.
Num tom de comédia de humor negro, José Fonseca e Costa não se inibe em arriscar tudo, num argumento longo e com várias personagens. Também verdade seja dita, que tinha tudo a seu favor, começando logo por um elenco de alto gabarito: Rogério Samora, José Raposo e, especialmente, Diogo Dória.
Viúva Rica Solteira Não Fica faz ainda uma reconsituição história assinalável, tem uma fotografia irrepreensível e até se socorre de uma banda-sonora eficaz e interessante. Contudo, o argumento não consegue ser sólido o suficiente para aguentar o peso do filme (duas horas e um quarto é, claramente, demasiado tempo), acabando por vacilar por várias vezes a partir do segundo acto.
Mas apesar de vacilar algumas vezes,
Viúva Rica Solteira Não Fica nunca chega a partir. E contrariando a minha atitutde fatalista perante o cinema nacional, tenho bastante prazer em encomendar um McBacon para a ceia.
Secção Oficial - POSTO FRONTEIRIÇO:Título:
KaraulaRealizador: Rajko Grlic
Ano: 2006

E ao sétimo dia, eis que surge
Posto Fronteiriço, aquele que é já o grande favorito a arrecadar o Golfinho de Ouro referente à edição do Festróia deste ano.
Apresentado com pompa e circunstância pelo embaixador croata em Lisboa e pelo próprio realizador Rajko Grlic (
o maior ícone da cinematografia croata),
Posto Fronteiriço é o primeiro filme co-produzido pelos países da ex-Jugoslávia, ou não se debruçasse ele sobre o conflito que viria a dividir o país.
Posto Fronteiriço aborda então os últimos anos da Jugoslásvia, a queimar os últimos cartuchos do sonho socialista de Tito, antes de Slobodan Milosevic subir ao poder. Era uma época em que a Jugoslávia se mantinha unida e que o exército era o seu símbolo de unidade, ou não agregasse ele várias etnias. O filme debruça-se particularmente sobre um posto fronteiriço específico, na fronteira com a Albânia, onde um regimento vigiava as movimentações dos albaneses com medo de uma hipotética invasão.
Contra todas as previsões,
Posto Fronteiriço nada tem de filme de guerra, indo antes centrar-se na vida entediante daqueles homens, isolados no meio do nada com um objectivo pouco estimulante. Quando o comandante Pasic (Emir Hadzihafisbegovic) descobre que apanhou sifílis, decide, com a cumplicidade do médico Sinisa (Toni Gojanovic), declarar estado de emergência e durante 21 dias ninguém pode deixar o quartel - o comandante não podia ir para casa sem estar curado, ou a sua esposa descobriria.
A tensão naquele posto fronteiriço começa a subir: ninguém pode sair do quartel, mas ninguém vê sinais de perigo. Por isso, Paunovic (Sergej Trifunovic), um tipo com pouco respeito pelos oficiais e com aptidão para as brincadeiras de mau gosto (uma espécie de Paul Newman em
O Presidiário), decide pregar a maior partida de todas. Uma partida que trará consequências trágicas.
Posto Fronteiriço funciona como uma interessante parábola com a história jugoslava, como quem diz
quem brinca às guerras acaba por se queimar. No filme, uma aparente partida num quartel descambou numa tragédia de faca e alguidar; e na Jugoslávia, o sonho de uma revolução e uma forte cisão interna, levaram a que descambasse numa guerra sangrenta de vários anos. Contudo, apesar desta descrição algo dramática,
Posto Fronteiriço consegue ser um filme bem divertido e, diria mesmo, bastante ligeiro.
Escusam de procurar mais:
Posto Fronteiriço leva para casa o Golf... ups, o Le Big Mc.
+ infoSecção Oficial -
Momentos AgradáveisSecção Oficial -
Heartbreak Hotel
Posted by: dermot @
1:47 AM
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