Quarta-feira, Julho 05, 2006
A CRIANÇA:Título:
L'EnfantRealizador: Jean-Pierre Dardenne & Luc Dardenne
Ano: 2005

A edição deste ano do certame de Cannes era um autêntico duelo de pesos pesados. No entanto, por entre todos aqueles tubarões de nomes consagrados, o vencedor da Palma de Ouro acabou por ser o desconhecido
A Criança, assinado pelos irmãos belga Dardenne. Hype cinematográfico ou pérola perdida entre pérolas? Para descodificar nas próximas linhas.
A premissa de
A Criança é bem simples. Aliás, todo o filme é bastante simples. Reduzido a um leque de actores que nem dão para encher uma mão, o filme centra-se na tríade de personagens constituída por Bruno (Jérémie Renier), a namorada Sonia (Déborah François) e o filho recém-nascidode ambos , Jimmy. O primeiro é um jovem que não sabe o que é trabalhar e que despreza quem trabalha -
o trabalho é para os cretinos, diz às tantas -, subsistindo de pequenos furtos e negócios ilícitos. No entanto, dinheiro nunca lhe falta no bolso e isso parece ser o suficiente para manter Sonia feliz.
Bruno é um indivíduo imaterial, sem apreço pelos bens terrenos da vida. Interessa-lhe o momento e para isso precisa de ter dinheiro no bolso. Por isso, tudo serve de negócio para ele, seja a máquina de filmar que roubou de manhã, ou o chapéu que traz na cabeça. Mas Bruno é tão incapaz de manter interesse num qualquer objecto como no seu próprio filho. Para ele, Jimmy é apenas o artigo definido
a criança. Ou será que a criança a que o título se refere é o próprio Bruno?
Seja como for, o busílis da questão está aqui: Bruno vende o próprio filho. E ao faze-lo cava um buraco suficientemente fundo para não conseguir sair dele. E quando mais esgravata para tentar sair, mais se enterra.
A Criança é um socio-drama cru e espontâneo, quase regido pela cartilha do Dogma: luz natural, câmara ao ombro e os cenários naturais, limitados aos subúrbios urbanos belgas, transmitindo uma pesada impessoalidade ao filme. Estes elementos em conjunto tornam o filme em algo tão realista que chegamos a ficar verdadeiramente aflitos com os personagens.
A Criança não procura lições de moral, visões subjectivas ou mensagens implícitas. Foca e conta uma estória, chocante é certo, mas de forma espontânea. E quando acaba de a contar, o filme acaba. Tão simples quanto isso. E é tudo o que é preciso para ser um bom filme. Era bom que fossem todos assim... Um redondido McRoyal Deluxe.
Posted by: dermot @
11:28 AM
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