Domingo, Março 05, 2006
COISA RUIM:Título:
Coisa RuimRealizador: Tiago Guedes e Frederico Serra
Ano: 2006

Há um tempo atrás comentava com um colega destas lides bloguísticas que uma das grandes pechas do cinema nacional é o facto de ainda não ter encontrado o "seu" realizador nacional, um cineasta que consiga filmar um cinema genuinamente português. Tal como o cinema de Ksuturica é original e tipicamente jugoslavo ou tal como o cinema de Kiarostami é original e tipicamente iraniano. Nós precisamos de um realizador original e tipicamente português e não de tantas americanices de Leonel Vieira ou compêndios fiéis do cinema erudito de João Botelho.
Para já, não é a dupla Tiago Guedes e Frederico Serra que vai salvar o cinema nacional. Mas
Coisa Ruim é um excelente filme regionalmente português. É certo que ajuda muito passar-se no meio de um vilarejo perdido no norte do país, mas mais importante que isso é que é original e descomprometido. E logo aí é meio caminho andado...
Coisa Ruim foi o primeiro filme português a abrir o certame do Fantasporto e logo assinado por um dos fantasfilho (um daqueles viciados que passava os dias enfiados no festival) e é um dos poucos filmes portugueses dedicado ao fantástico, género que raramente casa com cinema nacional na mesma frase. Chamam-lhe filme de terror, mas
Coisa Ruim não é um filme de sustos, é mais de terror psicológico, daqueles que nos consome as miudezas por dentro a pouco e pouco -
Coisa Ruim vai beber sobretudo a clássicos como
O Exorcista e
A Vila.
Já vimos esta história mais do que uma vez; aliás, já a vimos as vezes suficientes para dizermos que é banal. Uma família da cidade muda-se para um casarão herdado pelo pai Xavier (Adriano Luz), no meio do norte do país. Mas este é uma daquelas casas que guarda estórias que esperam por uma intervenção no mundo terreno para que possam gozar a eternidade descansadamente. Por isso, a sua esposa Dulce (Elisa Lisboa) e os três filhos (Sara Carinhas, José Afonso Pimentel e João Santos) vão começar a experienciar algo que não sabem explicar muito bem.
Coisa Ruim é um filme sobre o medo: o medo perdido na história portuguesa, o medo das superstições e tão incrustrado no interior do país e o medo do desconhecido. Não é só uma coisa ruim que cresce naquela casa abandonada; é o medo de uma população habituada aos exorcismos do padre, é o medo de uma família da cidade pouco habituada a lobisomens e histórias da carochinha.
É uma história banal, como já disse. Mas muito bem contada (apesar de alguns incontantes evolutivos) e (pasme-se) em português, o que nos faz parecer estar a vê-la pela primeira vez. Há cruzamento de histórias não-linear e até flashbacks que fazem sentido (num cameo de Paulo Branco), uma filmografia muito boa e uma genial (sublinho, genial) banda-sonora. Com um filme tão certinho até os actores que estamos habituados a ver de forma sofrível na televisão parece que são outros, não é João Pedro Vaz? Descobre-se ainda Sara Carinhas e tira-se o chapéus ao secundário Gonçalo Waddington.
A parelha Tiago Guedes e Frederico Serra, tal como Marco Martins (o realizador de
Alice), chegam-nos depois de um percurso feito na publicidade e por iso já lhes chamam "realizadores da publicidade". É certo que se nota a influência (no detalhe dos enquadramentos principalmente) e apesar de parecer que eles não gostam do adjectivo, não me parece pejorativo. O que é certo é que esta nova geração pode trazer muita coisa boa ao cinema nacional. Para já, esta
Coisa Ruim afinal é uma coisa boa. Também é certo que era apenas um McBacon, mas há uma cena com freiras a masturbarem-se; e como já disse, não há nada como a nunsploxtation. Por isso, é um McRoyal Deluxe final.
Posted by: dermot @
10:05 PM
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