Segunda-feira, Novembro 28, 2005
TRIOLOGIA O PADRINHO:
O PADRINHO - PARTE I:Título:
The GodfatherRealizador: Francis Ford Coppola
Ano: 1972

O que se pode dizer de um filme sobre o qual já tudo foi dito? O que se pode dizer de um filme que é unânimamente considerado como uma das melhores obras da sétima arte, um filme que redefiniu o género de filme de gangsters e um filme que revitalizou o grande Marlon Brando para a sua última fase da carreira, ao criar uma das mais emblemáticas personganens do cinema, Don Corleone?
A única coisa que se pode dizer acerca de
O Padrinho, de Francis Ford Coppola, é que é uma obra-prima. Mas para isso tinhamos de começar o texto pelo fim.
Em 1972, Coppola iniciava a sua triologia com um filme de gangsters sobre a máfia italiana em Nova Iorque, apesar de nunca ser mencionada a própria palavra. Don Corleone (Marlon Brando) é o chefe de uma das mais importantes famílias, mas as suas ideias começam a tornar-se obsoletas, uma vez que não acompanharam o progresso dos tempos. É que Don Corleone não acredita na droga como negócio e, como todos sabemos, é no pó branco que reside a grande fatia do negócio do submundo.
Vai estalar então uma guerra aberta entre as seis famílias da máfia nos Estados Unidos, nunca uma guerra pessoal, mas sempre uma guerra de negócios. Vão haver perdas lamentáveis de pais e filhos, traições, mas sempre muita honra e dignidade. Porque os valores das famílias italianas são a família, a honra e o respeito.
Retrato perfeito do universo social do submundo do crime na América dos anos 40/50,
O Padrinho não é um simples filme de gangsters: é uma autêntica epopeia que acompanha a dinastia da família Corleone, desde o seu mais respeitável representante (Marlon Brando), até à passagem de testemunho ao seu sucessor, o filho Michael (Al Pacino), uma espécie de filho pródigo que regressa a casa para salvar a dignidade da família.
E paralelamente à evolução da trama familiar, assiste-se a uma subtil mas fascinante evolução dos costumes americanos, na transição dos anos 40 para os anos 50.
O Padrinho é um filme dentro dos cânones clássicos, mas mesmo sem a inovação técnica de um
O Mundo A Seus Pés, por exemplo, insere-se no panteão das grandes obras cinematográficas, filme obrigatório e lição do bom cinema. Coppola consegue com distinção contar a história daquela família, sem intrigas acessórias, mas com uma crueldade pertubadora e arrepiante. Uma pintura realista, como uma espécie de telenovela da meia-noite.
Para além de tudo isto, Coppola ainda tem outras três jogadas de mestre: a aposta no quase desconhecido Al Pacino, que se viria a tornar num dos grandes actores da sua geração; a banda-sonora, que contém o fabuloso tema homónimo, perpetuado pela guitarra de Slash anos depois; e a famosa cena da cabeça do cavalo, retratada como a mais cruél vingança de sempre, que ficará para sempre na história das estórias da Máfia.
O único contraponto de
O Padrinho, que justifica de certa forma o Le Big Mac, é a sua (incontornáve) extensão de três horas. Nada de preocupante para os amantes de cinema, seja qual for o seu tipo.
O PADRINHO - PARTE II:Título:
The Godfather - Part IIRealizador: Francis Ford Coppola
Ano: 1974

A segunda parte da triologia de
O Padrinho assomava-se logo à partida como uma tarefa ingrata, uma vez que vinha suceder a uma obra-prima. No entanto, Francis Ford Coppola e Mario Puzo não se atomorizaram e o resultado acaba por roçar a perfeição:
O Padrinho - Parte II, unânimamente considerado como a melhor sequela da história do cinema num dos raros casos em que a sequela é superior ao antecessor, coleccionou Óscares e inscreveu-se igualmente no panteão das grandes obras cinematográficas.
Depois de
O Padrinho e do falecimento de Vito Corleone (Marlon Brando), pensava-se que a segunda parte da triologia iria projectar o domínio de Michael Corleone (Al Pacino) à frente da Família e a nova ascenção desta, graças ao mundo do jogo de Las Vegas. No entanto, Coppola foi mais além e com um golpe de asa só ao alcance dos grandes mestres, trasnformou simultaneamente
O Padrinho - Parte II numa prequela, ao retratar a origem de Vito Corleone (agora interpretado por Robert de Niro), que se move paralelamente à história actual, mas como que uma metáfora e uma crónica de um destino anunciado.
A Família Corleone está então mais próspera do que nunca, mas em contrapartida está também mais vulnerável, devido à perda de valores como a honra e o respeito - que se ganham com uma educação e uma experiência de vida como a dos italianos que emigraram para a América nos anos 20, retratada na perfeição pelo jovem Vito -, subjugados pelos valores contemporâneos do
dinheiro é poder.
Michael vai ver a sua vida atentada e a traição parte, desta vez, de dentro da sua casa. O especto de uma guerra entre famílias vai pairar novamente, mas desta vez tem proporções muito mais alargadas, consequências dum império expandido, que vai muito mais além do cantor-Johnny-Fontane-qual-Frank-Sinatra e da indústria musical/cinematográfica, enroscando as suas garras no sistema político, desde os senadores até aos territórios de Cuba.
Mais uma vez,
O Padrinho - Parte II não é só a epopeia de uma dinastia, como retrata paralelamente a evolução da América dos anos 50, projectando-se até Cuba, onde apanha estilhaços históricos reais de guerrilhas comandadas por Fidel Castro.
E mais uma vez Coppola tem um trabalho exímio, criando atmosferas familiares de um lado e atmosferas cruéis de outro, só que desta vez muito mais poderosas, recorrendo apenas à construcção exímia das personagens e à apaixonante banda-sonora.
O grande trunfo desta segunda parte perante o seu antecessor reside essencialmente na história paralela sobre o jovem Vito Corleone. E não é só devido ao magistral Robert de Niro, que arrecadou o Óscar de Actor Secundário pelo mesmo personagem que Marlon Brando já tinha encarnado e vencido a estatueta.
Com efeito, intercalado com a história actual de Michael Corleone, os flashbacks do jovem Vito são sempre como que uma metáfora para o destino cíclico dos chefes daquela família, relacionando factos da vida de um com a vida de outro e deixando à mostra que Michael era mesmo o filho pródigo.
O Padrinho - Parte II é um filme mais negro e pessimista - Michael chega mesmo a confidenciar à mãe que "perdeu a família" -, e ao mesmo tempo, mais cruel e violento - pela primeira vez é pronunciada a palavra "máfia" e pela primeira vez vemos Vito Corleone a matar alguém. Sempre dentro dos mesmos moldes de
O Padrinho, esta segunda parte é uma obra-prima perfeita, que nunca pode ser menos do que um Royale With Cheese.
O PADRINHO - PARTE III:Título:
The Godfather - Part IIIRealizador: Francis Ford Coppola
Ano: 1990

Poucos acreditavam, mas a saga
O Padrinho vinha a pedir há já algum tempo que fosse transformada numa triologia e completasse assim o número cabalístico. Apesar de não ter sido novamente a primeira escolha (chegou-se a falar inclusive de Sylvester Stallone(!)), Francis Ford Coppola realizou este terceiro tomo, em 1990, sem as ameaças e as pressões dos outros dois volumes. No entanto, curiosamente, o realizador assinou aqui o pior episódio da triologia. Não é que seja um mau filme; mas quando os outros dois têm aquela qualidade, tudo o que seja abaixo da obra-prima é visto com desconfiança.
Mas lá estou eu, novamente, a começar pelo fim.
O Padrinho - Parte III segue o fio de raciocínio dos seus antecessores: continua a narrar a evolução da família Corleone, desta vez com um salto temporal maior, até aos anos 90, e mantém um interessante jogo circular com
O Padrinho - bastante interessante o início, em que uma comunhão substitui o casamento da primeira parte, mas mantém todos os elementos, indo buscar inclusive o próprio padeiro Enzo. Evolutivamente,
O Padrinho - Parte III sobe ainda mais a parada - e os negócios vão-se realizar com o próprio Vaticano.
Michael Corleone (Al Pacino) nunca quis ser aquele homem. Tinha até prometido a si próprio não seguir os negócios do pai, uma vez que não se identificava com a máfia. E para efectuar esse corte alistou-se desde logo na tropa. Mas o destino de um homem já está traçado e Michael acabou por suceder ao pai, Vito (Marlon),e tornando a família Corleone numa das mais respeitáveis e ricas do Mundo. Agora, neste terceira parte, Michael tenta a todo o custo legitimar os seus negócios, abandonando o submundo do crime. Mas definitivamente, já não tem os valores morais e familiares do seu lado, que perdera em
O Padrinho - Parte II. A sua esperança recai então no filho bastardo do seu irmão, o tempestuoso Vincent (Andy Garcia).
Há um defeito importante nesta terceira parte, que as outras duas não tinham:
O Padrinho - Parte III é um filme breve. Além disso, é um argumento mais técnico do que táctico. Já não há guerras de gangues suficientemente credíveis, mas é preciso renovar o sangue da família, uma coisa inexplicável e cíclica. E Michael precisa de se redimir dos seus pecados. Por isso, se
O Padrinho - Parte II era o episódio mais negro,
O Padrinho - Parte III é o episódio mais introspectivo e pessoal.
Na primeira parte revelava-se Al Pacino e na segunda Robert De Niro. Neste terceiro há Andy Garcia, a única personagem digna desse nome neste último capítulo, uma vez que Sofia Coppola pouca arte tem para representar (bendita hora em que decidiu dedicar-se à realização). Garcia, que pessoalmente não admiro muito, tem aqui um desempenho bastante razoável, no papel de um gangster tempestuoso à moda antiga, com uma das cenas mais cool da triologia: quando dois homens armados o tentam assassinar na sua própria casa.
O Padrinho - Parte III é a assinatura desta triologia. Não vem contar nada, apenas redimir e colocar um ponto final parágrafo na saga. Porque mesmo que surja um quarto capítulo (que o Diabo seja cego, surdo e mudo), nunca será uma sequela, uma vez que mais do que uma triologia, estes três filmes são a epopeia de uma dinastia. E a família Corleone ficou por aqui.
Se ainda não tiveram o previlégio de ver
O Padrinho, esqueçam tudo o que viram até aqui. Esqueçam todas as triologias, esqueçam Star Wars, O Senhor Dos Anéis, tudo!
O Padrinho é A trologia, mesmo que este último tomo seja apenas um McBacon.
Posted by: dermot @
7:43 PM
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