Sábado, Novembro 26, 2005
LAST DAYS - OS ÚLTIMOS DIAS:Título:
Last DaysRealizador: Gus Van Sant
Ano: 2005

Apesar de ser honestamente inspirado nos últimos dias de vida de Kurt Cobain,
Last Days - Os Últimos Dias não tem muito a ver com o malogrado líder dos Nirvana. Quer dizer, terá a ver de certa forma subliminar, mas os fãs mais aguerridos do movimento grunge não encontrarão nada que se assemelhe ao formato biopic para se identificarem. Nem mesmo um requiem.
Feito o aviso, partimos então para o filme, o culminar de uma triologia de Gus Van Sant. Depois do insípido
Gerry, um exercício experimental que de filme tinha muito pouco e de
Elephant, interessante adaptação livre do atentado de Coumbine,
Last Days - Os Últimos Dias complementa a tríade e posso acrescentar que se situa num meio termo entre os seus antecessores. Fica ali num limbo algures entre o sobre nada de Gerry e o sobre tudo de
Elephant.
Blake (Michael Pitt) é uma sombra pálida de um ícone rock, em reclusão domiciliária após uma cura de desintoxicação. Perseguido por fantasmas, desnorteado e desorientado, Blake é um farrapo humano, que nos é apresentado numa sequência inicial perdido no mato, quase como um ser primitivo. Anti-social, Blake passa o filme a balbucionar coisas sem sentido e a evitar as pessoas, numa casa que compartilha com alguns amigos, que têm mais de parasitas do que de amigos. Blake consegue apenas encontrar um escape na música, que utiliza para exteriorizar toda a sua fúria contida e para exorcizar os fantasmas interiores.
Last Days - Os Últimos Dias é um filme minimalista. Há uma grande diferença entre o minimalismo e o simplismo, mas muitas vezes estes conceitos são baralhados. Este filme de Van Sant é o exemplo perfeito de um filme minimalista. E como tal, são muitas as interpretações que o espectador pode fazer do filme. Ou seja, o parágrado anterior que escrevi mascarado de sinopse, pode fazer ao leitor tanto sentido como se ele estivesse escrito em mandarim.
Significa isto que
Last Days - Os Últimos Dias não justifica nenhuma acção, nem procura dar respostas. Apenas apresenta os factos, de forma mais ou menos voyerista, apanhando com mesmo detalhe tanto a forma como a produtora discográfica (Kim Gordon) lhe atira a cara que se tornou um cliché do rock'n'roll, como a forma de Blake comer os seus cereais de manhã.
Neste processo, é um filme aborrecido. Na sua composição não linear, em que há cenas repetidas, Gus Van Sant apresenta-nos Blake a morrer várias vezes, sempre que é ignorado pelos amigos ou pela vida. É tão aborrecido que para vos dar uma ideia, vou recorrer a um exemplo: já todos nós abrimos, uma vez pelo menos, a porta de casa aos Elders, que nos pregaram um sermão tão grande sobre a sua religião que agora fugimos deles como o Diabo da cruz. Pois bem, em
Last Days - Os Últimos Dias, a determinada altura os Elders vão a casa de Blake. E conseguem ser menos maçadores que a maioria das partes do filme.
Vale assim por dois momentos: a fantástica cena em que Blake morre de vez e em que vemos o último fôlego a deixar o seu corpo, uma cena de fazer corar
A Paixão De Cristo; e uma sublime composição sonora, filmada à distância do outro lado da janela, de forma a não perturbar o músico. Além disso, há um apontamento curioso: quando Blake morre, os seus amigos fogem de casa, com a consciência pesada por não terem prestado atenção ao seu amigo. Simultaneamente, também nós podemos ficar com um certo peso na consciência por não temros prestado mais atenção a Blake durante o filme.
Last Days - Os Últimos Dias não é, como alguns dizem, uma epifânia rock de Gus Van Sant. É antes um Double Cheeseburguer. Mas atenção, porque vem acompanhado com um enorme benefício da dúvida.
Posted by: dermot @
9:03 PM
|