Quinta-feira, Novembro 10, 2005
ENTREVISTA:Se mencionar o nome de Sara David Lopes, o mais provável é não lhe dizer nada. No entanto, posso garantir ao leitor que é um dos nomes responsáveis pelo cinema que assistimos nas salas nacionais.
Sara David Lopes é um dos heróis sem rosto da legendagem dos filmes para português, um trabalho silencioso, mas de enorme responsabilidade e totalmente indispensável.
O
Royale With Cheese esteve à conversa com Sara David Lopes, com quem desvendámos alguns segredos desse processo chamado legendagem, que por nos ser tão comum, raramente nos interrogamos como é que se processa.
Royale With Cheese – Como entrou para o mundo das legendagens? Qual é a sua ligação com o cinema?Sara David Lopes – Sempre adorei línguas e sempre me interessei por tradução e cinema. Em miúda, fazia às vezes umas traduções para arranjar algum dinheiro. Eram trabalhos de pouca responsabilidade, mas alimentavam este meu interesse. Quando me propuseram traduzir documentários de inglês para português para um projecto chamado EUROPA TV, que funcionava a partir da Holanda, aceitei com imenso entusiasmo. Infelizmente, o projecto não vingou e a responsável pela parte portuguesa (tinha sido destacada daqui, da RTP, para encabeçar o projecto lá) regressou a Portugal. Naquela altura a RTP quis ampliar o seu leque de tradutores e ia abrir um concurso. Conhecendo já o meu interesse, ela propôs-me ingressar no grupo que a RTP ia formar. E eu assim fiz. Fiquei desde aí a trabalhar para a RTP em regime de freelance e com o tempo fui alargando o meu leque de clientes. A entrada para o cinema fez-se mais tarde, pela mão da Atalanta, para quem traduzi o primeiro filme da distribuidora, o
Yaaba.
RWC – Imagino que seja um trabalho complicado. Como se processa? Tem de traduzir o filme a partir do próprio som, assistindo ao filme e traduzindo simultaneamente ou é através do guião que é fornecido? Ou não tem nada a ver com isto?SDL – Como qualquer outro trabalho, é complicado para quem não o conhece. Realmente exige uma certa técnica, mas não é nada que não se aprenda, sobretudo se houver vontade e motivação. No entanto, é indispensável uma certa sensibilidade para as línguas. Em resposta à segunda parte da sua pergunta, geralmente são-nos fornecidos um guião e um suporte visual. Fazemos uma primeira visualização para tomar contacto com o filme e dividir o texto sob a forma de legendas. Essas marcações são feitas à mão no guião que nos dão. Frequentemente, acrescento logo uma frase ou outra que me ocorra. À laia de exemplo, neste último filme do Harry Potter, há uma parte em que os irmãos gémeos do Ron dizem em uníssono “Wicked!”. Quando estava a visionar o filme, ocorre-me logo a palavra “Fixe!” e anotei-a à margem. Quando vi o filme numa sala, ouvi um coro de gargalhadas quando a palavra apareceu. Isso indicou-me que foi uma solução feliz que podia não me ter ocorrido na fase já da tradução. Passada esta primeira fase, pegamos no guião e traduzimos. Depois, introduzimos o ficheiro da tradução no programa específico de legendagem e, de novo com a imagem, localizamos cada uma das legendas.
RWC – E quando são filmes falados numa língua que não domina?SDL – Nessas circunstâncias, procuro sempre que o espectador não se aperceba da minha ignorância. Não é que pretenda enganá-lo, até porque escrevo no fim tradução do inglês ou francês já para me salvaguardar, mas nessas traduções, o complicado é a localização. Realmente não percebo nada de chinês ou finlandês, mas entre as dicas do texto e a sensibilidade que vamos adquirindo com o tempo, ajudados por uma palavra ou outra, lá se consegue encaixar o texto. A parte pior é quando há um monólogo. Acontece acabar de localizar o texto do monólogo e sobrarem ou faltarem legendas. Aí, volto atrás e refaço esse pedaço até estar satisfeita. De qualquer modo, o ideal é que o espectador não tenha de se confrontar com “buracos” na tradução.
RWC – Por vezes é também uma tarefa ingrata. Nunca cometeu nenhuma gralha que a tenha deixado envergonhada?SDL – Sim, já me tem acontecido. Fico muito triste e embaraçada. No entanto, há vários tipos de “erros”. Uma gralha propriamente dita não é motivo de vergonha, embora nunca seja agradável constatá-lo. Quanto aos erros de tradução, já é outra coisa. Não é que tenhamos de saber tudo, mas temos uma responsabilidade enorme para com o público. Às vezes, quando estou a localizar, resolvo mudar a frase toda e deixo ficar uma palavra da frase anterior. Quando me apercebo disso na sala, fico muito aborrecida. Depois há ainda os chamados erros de simpatia. Quando traduzi o filme
El Rey Pasmado, distraidamente escrevi “a Santa Sede” em vez de Santa Sé, arrastada pelo espanhol! Quando me disseram, só tive vontade de me enfiar pelo chão dentro! Apesar de tudo, com os correctores que temos hoje à nossa disposição nos editores de texto, não há grande desculpa para cometer gralhas, mas errar é humano, não?
RWC – Uma das partes mais traiçoeiras nas traduções, imagino eu que seja nas partes mais obscenas. É comum vermos traduzidos palavrões enormes para simples “Meu Deus” ou algo semelhante. Existe algum código para essas situações ou o tradutor tem liberdade para fazer o que bem entende?SDL – Digamos que de uma maneira geral, o tradutor tem liberdade para fazer o que entende, no entanto, temos de ter bom senso e os nossos clientes confiam em nós. É verdade que irrita quando vemos um chorrilho de palavrões dito por um tipo cheio de tatuagens, armado até aos dentes, ser traduzido simplesmente por “Bolas!”. Contudo, é preciso ter em consideração que os filmes são vistos por muita gente de diferentes sensibilidades e que o que é aceitável para mim, deixa de o ser para certas pessoas de idade ou para alguém acompanhado por uma criança. Por outro lado, os americanos (infelizmente, é o caso da maioria dos filmes) dizem os ditos palavrões com muita facilidade e nem sempre o “fuck” se deve traduzir por “f...”.
Além de tudo isto, a questão dos palavrões prende-se com outra muito mais delicada que é a da classificação dos filmes. E se no cinema, as pessoas têm alguma atenção a isso, na televisão isso já não é tão respeitado. Os responsáveis pela programação e selecção de filmes devem ter isso em consideração, mas muitas vezes, valores mais altos (audiências, etc) se levantam... Uma vez, um canal de televisão pediu-me a tradução do filme
Shaft. É um filme visualmente violento e cheio de colorido terminológico. Perguntei a que horas passava e foi-me dito que estivesse à vontade porque ia ser à noite. Senti-me bastante inspirada e fiz uma tradução adequada. De repente, mudaram de ideias. Vieram a correr pedir-me que suavizasse os palavrões porque ia passar num sábado à tarde!
RWC – Costuma receber emails de pessoas a protestarem com alguma tradução menos bem feita, ou pelo contrário, a elogiarem uma tradução bastante pertinente?SDL – Sim, às vezes. Decidi pôr o meu e-mail na legenda da tradução precisamente para isso. Tenho recebido elogios muito simpáticos e alguns pedidos de trabalho (que nem referem a minha tradução). Uma vez, recebi um e-mail de uma senhora que perguntava muito curiosa em saber por que é que eu optava por traduzir passagens conhecidas da Bíblia em vez de usar os textos que já existem. Tinha observado isso em dois trabalhos meus e decidiu perguntar-me. A verdade é que eu não tenho qualquer formação religiosa e só sei o Padre-Nosso e a Ave-Maria. Tudo o resto, ou está localizado no meu texto, ou nem sei onde o ir buscar!
RWC – Portugal nunca teve uma grande tradição nas dobragens. Qual é a vantagem das legendagens sobre as dobragens? Ou é apoiante que se dobrem os filmes?
SDL – A discussão dobragem vs legendagem é antiga e muito controversa. Como é natural, ambas as técnicas têm vantagens, mas eu defendo que se devem aproveitar as vantagens de cada uma delas e rejeitar as desvantagens. É verdade que temos uma enorme taxa de analfabetismo, mas isso não se resolve dobrando os filmes. Até porque muitas vezes, essas pessoas (e aqui estou a especular, perdoem) estão mais interessadas em concursos e reality shows do que em filmes. A existência de filmes legendados estimula a leitura e a aprendizagem da língua, tanto do português como da língua original. Eu acredito que a falta de jeito para as línguas que se verifica em certos países se deve em grande parte à dobragem. Por exemplo, em França, Alemanha e Espanha (tudo países enormes, o que não deixa de ser curioso) as pessoas têm muito mais dificuldade em falar outras línguas e isso não se aplica apenas à pronúncia.
Claro que a dobragem também tem o seu mérito. Permite que as crianças mais pequenas possam ver certos filmes ou desenhos animados estrangeiros, por exemplo. Por outro lado, quando é bem feita, deixa-nos totalmente disponíveis para apreciar a imagem, coisa que não acontece nas legendas, pois a nossa atenção é dividida entre a legenda e a imagem e temos de ter em conta que há pessoas que por estarem pouco habituadas à leitura lêem mais devagar.
RWC – Imagino que já lhe devem ter passado pelas mãos milhentos filmes. Houve algum cuja tradução tenha sido particularmente complicada, por alguma razão em especial?
SDL – É difícil responder a essa pergunta, até porque o ser “particularmente complicado” tem muito que se lhe diga. Há textos manifestamente difíceis, como as peças literárias ou as coisas muito técnicas. No entanto, de uma maneira geral, os filmes de entretenimento recorrem a uma linguagem aberta ao grande público e não apresentam dificuldades de maior. Apesar disso, há textos que à partida vêm muito mal escritos e parece que a tradução não flui. Doutras vezes, o filme até é desinteressante, mas tem um guião muito bem escrito... Os documentários, contudo, são uma coisa à parte. Recentemente tive a oportunidade de fazer dois documentários do Michael Moore e vi-me literalmente grega em certas partes. Não porque seja difícil traduzir o texto, mas porque está cravejado de referências que não dizem nada aos portugueses (e infelizmente não podemos recorrer às notas de rodapé) e porque todas as informações são essenciais à compreensão do texto. Isso faz com que as legendas sejam muito densas e de difícil leitura e que se perca necessariamente qualquer coisa.
RWC – É já costume no Royale With Cheese terminar as entrevistas com um pequeno grupo de perguntas de resposta directa:- Qual é o filme da sua vida? Não consigo nomear um só. Há filmes de que gostei muito e filmes que, embora não tenha gostado particularmente, me ficaram na cabeça. Tenho uma certa obsessão em arranjar em DVD o filme
Blade Runner, mas se só pudesse ter UM filme, nem seria esse. De qualquer modo, gosto muito mais do cinema independente do que do ‘comercial’ e sinto-me também muito privilegiada por poder ver tantos filmes de países de cujo cinema nunca se ouve falar.
- E o pior filme de sempre, qual é? Da mesma maneira, também não consigo dizer um título. Há filmes que detesto fazer, mas isso prende-se mais com o género.
- O filme ideal: visto no cinema, ou no conforto do DVD lá de casa? Depende do filme. Há filmes que perdem muito quando vistos em casa, pura e simplesmente porque resultam muito melhor num grande ecrã e vistos às escuras com um som profissional. Outros vêem-se muito bem em casa. De qualquer das maneiras, adoro ir ao cinema propriamente dito, comprar o bilhete, procurar um lugar, sentar-me ao lado de pessoas que pelo menos na escolha do filme têm algo de comum comigo. Por essa razão, evito (quando não me recuso...) ir a cinemas integrados em áreas comerciais grandes. Gosto muito mais de entrar no cinema vinda da rua e não ter de passar por cinquenta e quatro lojas pelo caminho. Infelizmente, essa é uma tradição que se vai perdendo em Portugal, mas também aí acredito que o público que prefere as salas de acesso mais directo também tem mais a ver comigo.
- Os títulos dos próprios filmes também têm uma tradição curiosa em Portugal, no que diz respeito às suas traduções. Qual é a tradução mais risível de um título de um filme em Portugal? Antes de mais, gostava de esclarecer que não são os tradutores que escolhem o título aos filmes. Essa escolha é feita pelos departamentos comerciais que estão atentos a coisas que nem passam pela cabeça dos tradutores. Acontece muito raramente pedirem-nos uma opinião ou aceitarem uma sugestão nossa. Às vezes, o título entra até em contradição com o conteúdo do filme ou induz o espectador em erro. Há uns tempos, recomendei imenso a uma amiga que fosse ver o filme
Crash. Ela foi e adorou, tal como eu esperava, mas disse que nunca iria ver um filme chamado
Colisão (o título dado ao filme em Portugal). Quanto à sua pergunta propriamente dita, não sei dizer qual é o mais risível, mas, por exemplo, o filme baseado na história da Sereiazinha, que todos conhecemos, teve em Portugal o título
A Pequena Sereia, vá-se lá saber porquê...
Posted by: dermot @
7:12 PM
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