Quinta-feira, Novembro 24, 2005
ELA ODEIA-ME:Título:
She Hate MeRealizador: Spike Lee
Ano: 2004

Confesso que não sou grande apreciador de Spike Lee, nem mesmo do aclamado
A Última Hora. Não é que o considere um mau realizador (aliás, a sequência de
Ela Odeia-me em que o protagonista reencontra pela primeira vez a sua ex-noiva, é talvez a sequência mais bem filmada deste ano, uma lição perfeita de como usar a música para criar atmosferas, com pausas no sítio certo para transmitir mais ou menos ênfase, consoante as situações); também não me incomoda o seu estilo incisivo e crítico. Pura e simplesmente não sou apreciador do seu estilo. Ponto final.
Ela Odeia-me centra-se na personagem de Anthony Mackie: John Armstrong é o mais novo vice-presidente duma conceituada empresa farmacêutica, que na busca (corrupta) pela vacina para a SIDA, acaba por o despedir, transformando-o no bode expiatório do insucesso. Reduzido à indiferença e à pobreza, dois estatutos a que nunca estivera exposto, John acaba por arranjar uma forma de ganhar dinheiro que à primeira vista parecia fácil e confortável: engravidar lésbicas de forma natural, a troco de alguns milhares de dólares.
Spike Lee mistura neste caldeirão todos os temas que tem usado ao longo da sua filmografia como forma de crítica à sociedade contemporânea (acrescentar a palavra norte-americana à frase), a saber: racismo, xenofobia, descriminação, as desigualdades sociais e a cultura empresarial. Assim, cruza no mesmo filme duas histórias que pouco têm em comum: de um lado a corrupção empresarial das grandes empresas capitalistas cujo único objectivo é a fome de dinheiro; e de outro lado o racismo e a desigualdade social, de todas as formas: racial ou sexual. Isto é como quem diz: de um lado o drama pessoal de um homem despedido e perseguido; do outro lado, a componente cómica de um homem que assume o estatuto que todos os homens sonham - o de homem objecto (uma espécie de
Deuce Bigalow - Gigolo Profissional, mas em bom).
Assim,
Ela Odeia-me é um apanhado de elementos de várias histórias que nem sempre se encaixam: há lésbicas incompreendidas, descriminação racial, um negro trasnformado em bode expiatório por ser o elo mais fraco, a máfia e até julgamento social. Aliado a isto há ainda as metáforas que Spike Lee usa constantemente: a metáfora com Frank Wills, o homem que decobriu Watergate e que foi tragado pela sociedade (com recurso a uma reconstituição da cena em sonho genial); e a metáfora com a descriminação e desigualdade social que há para com as mulheres, invertendo os papéis, ao colocar John Armstrong como um boneco sexual usado por elas.
Ela Odeia-me é uma amálgama algo estranha e pouco convincente, que se salva pela forma escorreita habitual do realizador. Para além disso, as duas horas longuíssimas de filme (cujos créditos iniciais, candidatos certamente ao prémio de "créditos iniciais mais longos de todo o sempre", já pareciam fazer prever) e o final banal, com um clímax patriótico em tribunal, não ajudam nada a quem estivesse ainda céptico com a validade do filme.
Por isto, mesmo que
Ela Odeia-me acabe com uma metáfora curiosa - em que o casal lésbico que passa o filme a ser descriminado, termina num trio(!) -, é um filme que não vai além do Double Cheeseburguer. E garanto que não é nada pessoal.
Posted by: dermot @
5:38 PM
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